10/05/2010

Os Escritos práticos dos Puritanos

 

A obra de Richard Baxter, Christian Directory (Diretrizes Cristãs), escrita em 1664-1665 e impressa em 1673, continha, no parecer dos primeiros editores de Baxter, "talvez o melhor corpo de teologia prática disponível em nossa própria língua ou em qualquer outra". Em sua "Advertência" de abertura, Baxter afirmou que escrevera, em parte, a fim de que "os ministros mais jovens, mais despreparados e mais inexperientes contassem com um prontuário para ajudá-los em decisões e orientações práticas sobre os assuntos que tinham necessidade de abordar". Sob o título "Casos Eclesiásticos de Consciência" ele tratou de questões práticas, das quais os ministros mais jovens podiam precisar; e quando respondia à questão 174: "Quais livros, especialmente de teologia, alguém deveria escolher, se, por falta de dinheiro ou de tempo, pudesse ler apenas alguns?", alistando "a mais ínfima ou menor das bibliotecas que é tolerável", referia-se à pequena biblioteca dos jovens ministros. Sua resposta, numerada segundo o estilo Puritano padrão, consistia em seis itens; e o sexto, depois da Bíblia, de uma concordância, de um comentário, de alguns catecismos ingleses e de alguns livros ingleses sobre a doutrina da graça, foi este: "Tantos escritores ingleses práticos e emotivos quantos sejam possíveis". E listou cerca de sessenta deles(!), e repetiu: "Tantos quantos sejam possíveis". Sua repetição enfática e a dimensão de sua lista são coisas notáveis. É claro que ele via pouca esperança para os jovens ministros que não se estribassem nos "escritores ingleses práticos e emotivos".


Ele não os recomendava somente para os ministros. Na carta dedicatória prefixada ao primeiro livro que escreveu, intitulado The Saints' Everlasting Rest (O Descanso Eterno dos Santos), (1649, um sucesso de livraria, com oitocentas e quarenta e quatro páginas, reimpresso anualmente durante os dez primeiros anos de publicação), ele exortou sua congregação em Kidderminster: "Leiam muito os escritos de nossos antigos e firmes teólogos" . Ele estava aludindo a esses mesmos escritores "práticos e emotivos". A recomendação para que lessem tais escritores, muitas vezes feita com elogios particulares, aparece com freqüência nos livros devocionais de Baxter, os quais foram escritos com o propósito de aumentar esse corpo literário. "Esforcei-me por adaptar tudo, ou quase tudo, em sua matéria e exposição, à capacidade do povo comum", escreveu ele no prefácio de seu sermão sobre a soberania absoluta de Cristo (1654).


E embora, pela importância do assunto, seja tão necessário para os eruditos quanto para as pessoas comuns, foi principalmente para estas que eu o publiquei; e preferiria que o mesmo fosse contado entre aqueles livros que são levados pelo país inteiro, de porta em porta, pelos mascates, e não entre aqueles livros que ficam empilhados nas prateleiras dos livreiros, ou postos nas bibliotecas dos mais eruditos teólogos. E para o mesmo fim eu designaria a maioria de meus esforços literários publicados, se Deus me concedesse tempo e habilidade.

O próprio Baxter tinha aprendido a exercer fé em Cristo, alicerçado no livro de Sibbes, Bruised Reed (Cana Quebrada), vendido para seu pai na entrada da casa, por um mascate, um quarto de século antes, e ele não podia conceber utilidade maior para os seus próprios livros, do que se eles pudessem cumprir exatamente esse tipo de ministério. Aqui, nova¬mente, encontramos uma indicação do valor que ele via nos "escritores práticos e emotivos".


Minha presente tarefa consiste em introduzir ou reintroduzir esses homens a um mundo cristão que habitualmente os negligencia. Eles foram populares e valorizados em seus dias e por mais de dois séculos; contudo, agora são quase totalmente desconhecidos. O interesse pelo Puritanismo, despertado nos últimos cinqüenta anos, é de natureza principalmente acadêmica, e parece que não são muitos os crentes que estão lendo as reimpressões de suas obras agora disponíveis.9 Acredito que essa negligência empobrece-nos gravemente e gostaria de ver o fim dessa situação.

Chamarei a esses "escritores práticos e emotivos" de Puritanos, como o fazem todos. Mas, devemos notar que esse uso vem do século XVIII, não sendo uma descrição que lhes era contemporânea. Fazendo uma distinção no campo da teologia prática, delinear alguém como um Puritano consiste em usar esse termo de uma maneira que não corresponde a quaisquer de suas aplicações durante o período (1564-1642), em que se tornou corrente.

Durante esse período, ser chamado de "Puritano" era um insulto, indicando um dos dois ou ambos os males: o elitismo da "igreja-pura" ou do espírito de censura pedante — duas desagradáveis formas de orgulho. Assim carregada, a palavra foi aplicada desdenhosamente aos possíveis reformadores da igreja nacional e aos crentes piedosos em geral, como o pai de Richard Baxter, o qual foi escarnecido como Puritano por seus vizinhos, porque preferia ficar dentro de casa aos domingos à tarde, a fim de ler a Bíblia e orar com os seus familiares, em vez de dançar ou jogar na praça da vila. À parte dos obscuros anabatistas de Londres, sobre os quais John Stowe tinha ouvido, os quais, de acordo com seu relato, chamavam a si mesmos de "Puritanos, as ovelhas imaculadas do Senhor", ninguém jamais reivindicou esse nome; e William Perkins, a figura patriarcal entre os "escritores práticos e emotivos", rejeitava o título por ser "vil". Sem dúvida, é um título escorregadio, difícil de manusear. R.T. Kendall observou, com justiça, que "se alguém aceitar o termo 'Puritano' então também deve, para ser coerente, ou reajustar a definição para ser aplicada a um homem por vez, ou então, se estiver tratando com uma tradição, deve começar com uma definição e terminar com a outra". Kendall preferia chamar a escola dos "escritores práticos e emotivos" de "predestinados experimentais" — o que é uma descrição apropriada.

Autor: James I. Packer

fonte:    yflower: Os Escritos práticos dos Puritanos

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