10/10/2008

O ATAQUE FOI CONTRA DEUS


O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, procurou transformar o ataque de 11 de setembro numa guerra do bem contra o mal. Parafraseou, inclusive, uma expressão de Jesus Cristo: “Quem não estiver conosco, estará contra nós”. Dan Rather, âncora de uma das mais expressivas redes de televisão americanas, chorou em um show de entrevistas. Com a voz embargada, afirmou que os terroristas atacaram Nova York, porque tinham inveja da riqueza americana. Osama bin Laden incluiu o sofrimento dos palestinos e a presença americana no solo sagrado da Arábia Saudita como justificativa para o ódio que levou seu bando a matar gente inocente na cidade mais cosmopolitana do mundo.
Naquela manhã fatídica eu estava ligado na CNN. Permaneci imóvel diante das torres do World Trade Center se esfumaçando. Vi as primeiras imagens do Pentágono, o centro da mais imponente máquina militar do planeta, ardendo sob o impacto de um avião que se espatifara contra suas paredes até então consideradas indevassáveis. Chorei quando ruíram aqueles dois edifícios, imaginando as pessoas desesperadas correndo para salvarem suas vidas. Eu sabia que o mundo nunca mais seria o mesmo.
Naquela noite, preguei em um seminário sobre as igrejas do Apocalipse. Estava consciente de que as conseqüências daquele ataque suicida alcançariam todos nós. Eu sabia que era testemunha ocular da história. Desmoronavam as teorias de Francis Fukuiama de que a História (com h maiúsculo) terminara com a dissolução do império soviético e que já não haveria utopias a serem sonhadas. O neoliberalismo chegava ao fim. Ou os estados intervinham nas economias ou haveria um colapso global, começando pelas companhias aéreas. O dia 11 de setembro aposentava também aqueles antigos mapas escatológicos que nos forneciam uma cronologia dos eventos que antecederiam o fim do mundo. O vilão, ao contrário do que pensavam os teólogos dispensacionalistas, já não seria o Mercado Comum Europeu nem o comunismo, mas o islamismo.
Eu, brasileiro, nordestino, pastor de uma igreja pentecostal, estarrecido com todos os acontecimentos, sentia que eles envolviam mais interesses internacionais com repercussão na economia e nas relações do Ocidente com o mundo islâmico. Mas um artigo de José Saramago, publicado na Folha de São Paulo de 19 de setembro, chamou-me a atenção pelo título: O Fator Deus. Ele abriu meus olhos para as mudanças que se prenunciam para o mundo religioso.
Suas considerações, mesmo tendo de descontar sua notória antipatia a Deus, mostraram-me que os atentados do mês de setembro produzirão no mundo ocidental uma nova postura quanto à religião. Por isso, interessei-me em lê-lo cuidadosamente. Saramago afirmou: “Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana.”
Sua análise coincide com a mentalidade pós-moderna de que “Deus não é mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real”. Talvez por haver escrito apenas oito dias após aquele desastre programado, o português ganhador do prêmio Nobel não nos poupou de sua virulência verbal: “Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como outros, insultos descarados a uma inteligência [...]”.
Saramago cunhou a expressão “fator Deus” para combater todo engajamento religioso, que ele acredita ser maligno e promotor de tanto sofrimento humano. Para ele, o ‘fator Deus’, que “se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina” é que deve ser responsabilizado pelo fanatismo secular que tira a paz da humanidade. Ainda: “E foi o ‘fator Deus’ em que o deus islâmico se transformou que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações”.
O escritor português escreveu que não foram os deuses inventados pelos homens que cometeram esses atos sinistros, mas esse tal ‘fator Deus’ que é “terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.”
Arnaldo Jabor, por sua vez, afirmou em um programa de televisão naquela mesma semana que o monoteísmo é o verdadeiro responsável pelo ódio religioso. Ele acredita que ao criarmos Deus, precisávamos descartar as outras idéias sobre a divindade. Ao transformarmos todos os outros deuses em ídolos falsos, geramos a intolerância religiosa. Para ele, os modelos monoteístas (judaísmo, cristianismo, islamismo) promovem mais ódio que quaisquer outros, pois enxergam o próximo sempre como um herege ou um parceiro do diabo.
Os atentados terroristas recrudescerão a intolerância ocidental para com aqueles que não forem ecléticos e ecumênicos. Todos os que, de agora em diante, insistirem nos antigos valores da ética judaico-cristã, acreditarem na afirmação de que Jesus Cristo é o Caminho, ou pregarem os postulados da Reforma de que há uma só verdade religiosa objetiva, revelada na Bíblia, receberão imediatamente o rótulo de retrógrados, medievais e reacionários.
Acredito que os desdobramentos de 11 de setembro de 2001 serão sentidos na comunidade evangélica a médio e longo prazo. Seremos mais e mais rechaçados quando pregarmos a exclusividade da cruz como meio de salvação. Viveremos sob o patrulhamento ostensivo de uma sociedade que não admitirá que falemos da lei moral que condena o pecado e afirma os valores da família, da dignidade da vida e da justiça social. Seremos discriminados pela nossa teimosia em afirmar que há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens. Seremos mais e mais estigmatizados quando insistirmos na unicidade da encarnação e no mandato evangelístico. Já é difícil mostrarmos a necessidade de evangelização dos povos indígenas; a partir de agora será quase impossível.
Os terroristas criaram uma nova mentalidade no mundo. O conceito de tolerância já não é o da convivência entre idéias diferentes. A partir de agora será o de não se insistir em uma idéia, principalmente religiosa.
Sim, a religião, ou como quer José Saramago, o “fator Deus”, não só conspirou para matar Jesus Cristo, como foi responsável pelas Cruzadas, pela Inquisição, pelo genocídio da Armênia, pelo massacre em Ruanda, pelo ódio na Irlanda do Norte e, agora, pelo Talibã, com uma história aviltante de desprezo pelas mulheres, desastre econômico, ecológico e cultural do Afeganistão.
Mas condenar Deus por aquilo que os homens fazem em seu nome seria como condenar a ciência por desenvolver tecnologia que possibilite uma guerra biológica ou condenar os romancistas por escreverem a ficção que inspira os violentos a matarem.
Os terroristas que voaram contra aqueles edifícios pensavam demolir um símbolo econômico e em desestabilizar uma nação. Acabaram atingindo a Deus! Agudizaram a repugnância que a cultura ocidental nutre contra os valores religiosos e aumentaram a resistência que homens e mulheres têm de amarem a Deus. A partir de agora, meninos e meninas aprenderão a não defenderem idéias, principalmente religiosas, para não receberem a pecha de fundamentalistas.
Jesus profetizou sobre o fim afirmando: “Sereis odiados de todas as nações, por causa do meu nome” (Mt 24.9). Este versículo já se cumpriu inúmeras vezes através dos séculos. Temo que o clima se torne mais uma vez tão insuportável que nos sintamos intimidados de pregar o “evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações” (v. 14). Receio que jovens do mundo ocidental cresçam sem ideais, quaisquer que sejam eles, e que radicais islâmicos sejam os únicos dispostos a morrerem por uma causa. Sem bandeiras, sem objetivos e sem utopias, permitiremos que a iniqüidade se multiplique. Em se multiplicando a iniqüidade, o amor se esfriará de quase todos e aí virá o fim.
Que Deus tenha misericórdia de nós.
Ricardo Gondim
Soli Deo Gloria

Fonte: Editora Ultimato - formação e informação

O PARADIGMA DO MINISTÉRIO PASTORAL



O ministério pastoral pressupõe chamamento, vocação, preparo – é preciso que o obreiro seja provado e aprovado para Cristo e por meio dele

Um pastor de uma importante denominação evangélica fora “demitido” de sua igreja, sob a alegação de que não conseguira atingir a meta financeira anual. Ele pensava em ingressar na Justiça do Trabalho exigindo seus direitos, porque julgava-se prejudicado pela denominação. Casos assim repetem-se em todos os cantos. Que caminhos conduziram parte da comunidade evangélica a uma vivência ministerial mercantilista da fé cristã? Existe um suporte ideológico que possa legitimar essas práticas? A resposta não é fácil, mas podemos conjecturar alguns pressupostos.
O pragmatismo surgiu nos Estados Unidos através de seu maior divulgador e um de seus maiores mentores, William James. A princípio, o movimento influenciou o comércio e a indústria; passou depois às instituições de ensino, e por fim atingiu a teologia. Sociologicamente, ele aparece em meio a transformações culturais e industriais. Em princípio do século 19 e no início 20, a sociedade americana encontrava-se num crescente êxodo rural. O processo de urganização transformou uma economia agrária em industrial. O pragmatismo caiu como uma luva neste novo ambiente, que exigia uma nova forma de ver e fazer as coisas. O resultado é que passou a ditar a nova ótica de uma sociedade ávida por realização.
Até então, a vida, a natureza e a práxis teológica estavam centradas nos fundamentos ortodoxos doutrinários. A preocupação básica era com a filosofia teológica: seus fundamentos, sua hermêneutica, seus dilemas, seus paradoxos, sua base – se era bíblica ou não – etc. No Brasil, as instituições teológicas receberam a influência de missionários e pensadores europeus e americanos. Eles trouxeram a sua bagagem cultural e pregaram-na como um “absoluto teológico”, sem o discernimento e a devida compreensão do que estava a ser ministrado às igrejas e instituições teológicas, que, por sua vez, adotaram-na como uma verdade inquestionável. Afinal, questionar não faz parte da maioria do vocabulário evangélico brasileiro; o pensamento crítico soa como um subversão, rebeldia ou coisa do gênero.
Sou de certa forma nostálgico com a vivência pastoral dos pioneiros evangélicos que desbravaram esse imenso país: eram homens de caráter sério, de vida de oração constante, de piedade exemplar, de modéstia e simplicidade evidentes. Quando lemos as histórias dos pioneiros das várias denominações, é impossível não nos sentirmos desafiados a uma vida mais santa. Contudo, a tônica da liderança atual está centrada no que se pode denominar de teologia de mercado, ou seja, seus resultados. Não importam os meios; o que é fundamental é o número de pessoas que enchem os templos. Nesse frenesi por resultados, pouco importa a moral dos fiéis; é por essa razão que ser evangélico já não causa mais impacto na sociedade: escândalos financeiros já não escandalizam ninguém, evangélicas já posam em revistas masculinas.
Igrejas há que não questionam seus candidatos a cargos eletivos acerca de sua prática devocional, integridade pessoal, idoneidade como cidadão e outros aspectos que eram valorizados noutros tempos. O talento suplantou a obediência e a santidade; já não se avalia um clérigo pelo que ele é, e sim pelo que realiza. O fruto disso está aí: líderes bem sucedidos numericamente, porém derrotados e cheios de síndromes megalomaníacas.
A América Latina é pródiga em suscitar líderes com caráter feudal. E esta cultura se reflete em muitas denominações evangélicas. O autoritarismo é reproduzido nos sistemas eclesiásticos, surgindo figuras os “ungidos”, os “apóstolos” ou os homens “da visão de Deus”. Some-se a isso a pobreza teológica de muitos segmentos e teremos lideranças pífias, pastores que não sabem fazer uma exegese do texto sagrado, são incapazes de ministrar mensagens expositivas – geralmente, pregam-se mensagens tópicas, que são mais fáceis de elaborar e não exigem trabalho metódico de estudo, pesquisa, análise e reflexão.
Um povo evangélico sem cultura teológica é um povo facilmente influenciado, manipulado e dominado. E quais são as evidências de um líder evangélico feudal? Há alguns indícios exteriores que ajudam a perceber o comportamento da maioria deles. Liderança absoluta, por exemplo – este tipo de dirigente não abre mão de possuir todo o controle. Ele também age como detentor do poder absoluto, não permitindo questionamento. Além disso, o líder feudal vê nos membros da igreja pessoas que devem servi-lo, e não o contrário; por fim, há um sinal muito evidente que demonstra o clímax desse feudalismo religioso: a liderança da igreja é exercida num sistema de sucessão familiar, com perpetuação de uma dinastia personificada na família do líder. É interessante observar que até mesmo denominações históricas têm se vergado a esse tipo de liderança, geralmente exercido por pessoas muito carismáticas.
Por outro lado, hoje em dia, o pastor já não é avaliado pela natureza do seu chamado, pelo que ele é como cristão e servo de Deus. Pouco importa para algumas igrejas o que as Escrituras têm a dizer sobre o ministério pastoral. Importa o que ele pode produzir em termos de crescimento numérico. Mas em nenhum lugar da Palavra de Deus encontramos textos associando o crescimento da igreja em termos de números ao caráter do obreiro. Paulo disse que o crescimento da obra vem do Senhor. Afinal, o novo nascimento é uma experiência transcendente, puramente espiritual, que não pode ser mensurada por avaliação humana; somente o Pai Celeste sabe os que são seus e que o servem de coração.
A centralidade da mensagem cristã precisa voltar-se para Cristo. Em alguns círculos evangélicos, a mensagem é antropocêntrica, voltada para os desejos da natureza humana; em outras comunidades, destacam-se os paradigmas de natureza filosófica. Isaltino Coelho diz que há pastores que conhecem mais a respeito de Nietzsche e Platão do que a respeito de Jesus Cristo. A mensagem que pregamos é esta: “Jesus Cristo crucificado”, conforme disse Paulo. O ministério pastoral pressupõe chamamento, vocação, preparo – é preciso que o obreiro seja provado e aprovado para Cristo e por meio dele.
Um ministro tem uma ferramenta de trabalho, a Bíblia; o que o bisturi é para o médico, são as Escrituras para o pastor. E ele deve fazer conforme a recomendação do apóstolo: “Pregar a Palavra”, e somente a Palavra.

Josenaldo Silva
Pastor na Igreja Batista de Sete Rios, em Lisboa, Portugal
Fonte: Revista Eclésia

04/10/2008

A COR DO RACISMO


Autor :
Pb.Paulo Cristiano

O que teria levado Hitler a declarar: “... o extermínio dos judeus será minha prioridade ao assumir o poder...”?
Qual a razão de nações inteiras optarem pelo uso de escravos africanos?
Por que um movimento optaria por lemas como “Brasil para brasileiros sem a presença de estrangeiros”?
O racismo é antigo, tão antigo quanto o pecado do homem. Você já parou para pensar quantas barbaridades não se cometeram em nome do preconceito racial?!
O que é Racismo?
Em toscas palavras, o racismo assim pode ser conceituado: é o ato de colocar uma pessoa em situação de inferioridade, subjugada, por causa de sua cor de pele ou etnia, em detrimento de outra que, por causa de sua situação racial, se autodenomina de “raça superior”.
Embora alguns usem o binômio: racismo e preconceito de modo intercambiável, os estudiosos, contudo, costumam fazer diferença entre eles. É que o racismo sempre será acompanhado de alta dose de preconceito, mas nem sempre preconceito quer dizer racismo. As manifestações preconceituosas podem envolver muito mais que raça.
De um enfoque histórico esta questão definitivamente não se restringe apenas a área da sociologia, mas se estende a quase todos os campos de estudos humanos. Indo da religião à psicanálise. Trata-se do preconceito racial que sem dúvida é um dos grandes pivôs que dá cor à violência em nosso cotidiano.
A temática é uma questão candente do nosso tempo, está na ordem do dia. Muito embora, tenha sido negligenciada por tanto tempo, parece que agora as autoridades internacionais acordaram para o assunto. Em 2001 foi realizada pela ONU a III Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância, em Durban, na África do Sul. Um dos objetivos era formar uma nova visão mundial no combate ao racismo, ao preconceito e a intolerância.
“A discriminação entre seres humanos com base em raça, cor ou origem étnica é uma ofensa à dignidade humana e será condenada como uma negação dos princípios da Carta das Nações Unidas, como uma violação dos direitos humanos e liberdades fundamentais proclamadas na Declaração Universal de Direitos Humanos, como um obstáculo para relações amigáveis e pacíficas entre as nações, e como um fato capaz de perturbar a paz e a segurança entre os povos.” (1)
Racismo no contexto brasileiro
Devido à espantosa miscigenação racial existente em nosso país, que o coloca em uma situação impar no mundo, criou-se um estereotipo de nação-paraíso das etnias. Na opinião de muitos, a tolerância racial aqui é vista como em nenhum outro país do mundo.
Não obstante essa visão mítica de “igualdade de raça”, o contexto histórico brasileiro apresenta uma outra realidade. Não se pode negar que o racismo faz parte do cotidiano de muitos brasileiros. Ora, qual de nós nunca foi vítima desta prática horrenda? Segundo o ex-diretor e assessor jurídico do Instituto de Pesquisa e Culturas Negras, Dr. Luiz Fernando Martins da Silva, “O Brasil possui a maior população negra fora da África. É a segunda maior população negra do mundo, só inferior numericamente à população do mais populoso país africano, a Nigéria.”. Também a pesquisadora paulista Elza Berqui afirma que a miscigenação brasileira atingiu os 21% em comparação com os EUA que ficou em torno de 4%.
Apesar da grande parcela da população ser de origem negra, cuja pujança não se pode negar no contexto histórico de nosso país, não é raro encontrarmos cada vez mais brasileiros sendo vítimas do preconceito racial.
Frases como “negão” e piadas de “preto”, já fazem parte, como diria Jung, do inconsciente coletivo brasileiro.
Por exemplo, um artigo do jornal “O Estado de S. Paulo” de 24/09/96 - pag. A16 que trazia como subtítulo a seguinte frase “Ex-funcionário alega ter sido demitido da Eletrosul, em Santa Catarina, por ser negro.” é um exemplo típico do que estamos falando. Este episódio é vivido diuturnamente e anonimamente por milhares e até milhões de pessoas, no chamado país da “tolerância”.
Mas quem pensa que a intolerância racial se restringe apenas à raça negra está enganado, quem não se lembra do caso em que um grupo de jovens ateou fogo num índio em Brasília?! O preconceito alargou suas fronteiras, de seu alvo principal - a cor da pele - atingiu a camada social, a religiosidade e a nacionalidade. O pobre, o judeu, o índio, o protestante é tão vítima da discriminação quanto é o negro. Isto porque o ser humano tende a ter medo de tudo que é diferente, e essa xenofobia contribui para levar à rejeição e por fim à resistência à realidade da qual não se está habituado e nem pretende compartilhar.
Ao analisarmos o boom do racismo é quase imperiosa a menção a algumas entidades como a Ku Klux Klan e grupos como os Skinheads que se tornaram notórios pela sua apologia ao racismo que na defesa de uma nefanda ideologia de supremacia racial deixaram e ainda deixam as marcas de suas atrocidades.
A Ku Klux Klan
Em 1866, no Estado do Tennessee, surge uma das mais monstruosas instituições racistas que a sociedade norte americana já conheceu – a Ku Klux Klan - formada por ex-soldados do sul do país que serviram na guerra contra a abolição. O grupo que já chegou a ter 4 milhões de filiados, deixou por vários anos um rastro de terror e assassinatos que até hoje não foi esquecido e indubitavelmente se tornou uma mancha na história da nação que é considerada a “terra da liberdade”. Com os rostos e corpos cobertos por lençóis brancos costumavam queimar cruzes na frente da casa das pessoas que queriam intimidar, principalmente de raça negra. Suas primeiras ações eram voltadas ao combate ao voto dos negros. Depois a intolerância se alargou para outros grupos minoritários tais como os judeus, hispânicos, simpatizantes dos direitos civis e outros. Mas não pense que a Klan foi algo sui generis, não, na verdade grupos menos conhecidos de discriminação racial afloravam na época como a Irmandade Branca (White Brotherhood), os Homens da Justiça (Men of Justice), os Guardiões da União Constitucional (Constitutional Union Guards) e os Cavaleiros da Camélia Branca (Knights of White Camelia). Pasmem! O movimento até hoje sobrevive e possui até site na Internet.
Os Skinheads *
Os Skinheads, também conhecidos por “carecas” são notadamente mais recentes que a Ku Klux Klan. Contudo, não menos violentos. São grupos de jovens nacionalistas. Apesar de muitos classificá-los como nazistas, na verdade apenas um grupo no Brasil se identifica com o nazismo – os White Powers (Força Branca) - o mais radical de todos eles. Existem várias facções diferentes dentro do movimento cada qual com ideologias próprias, “por exemplo, enquanto os White Powers pregam contra os nordestinos, homossexuais, judeus e negros, os carecas do ABC só se opõe aos homossexuais e estrangeiros”, explica Rosan Roberto da Silva, que foi um dos primeiros integrantes dos carecas do ABC, hoje convertido ao Evangelho. Já o sociólogo Sérgio Vinícius de Lima Grande, autor da dissertação de mestrado Violência Urbana & Juventude em SP, acredita que esta facção apesar de apoiar o anti-semitismo e o preconceito contra os homossexuais, “não é a favor da discriminação racial”. Todavia, se nessa diversidade há algo que os une é sem dúvida a violência e o preconceito, seja de uma forma ou de outra. Esse espírito nacionalista tem levado muitos destes jovens a cometerem terríveis atrocidades em nome dessa ideologia. Um caso que chocou o Brasil foi a morte do adestrador de cães e homossexual Edson Neri da Silva, de 35 anos. Ele foi espancado até a morte por Skinheads na Praça da Republica em São Paulo. “Estes jovens praticam violência por nada, não existe uma razão, a violência está no centro do movimento”, conclui Rosan.
A Internet como meio de divulgação do racismo
A internet tem sido um dos meios mais eficazes para esses grupos disseminarem suas propagandas racistas. Sites de grupos extremistas polulam na rede mundial de computadores. Segundo o Southern Poverty Law Center, em Alabama, o número de grupos racistas americanos havia crescido de 1997 a 1999, 30%, hoje já chegam a quase 600 só nos EUA. “São nada menos que duas mil páginas divulgando receitas para eliminar qualquer pessoa que não seja da raça branca. Em abril de 1995, quando aconteceu em Oklahoma um dos maiores atentados terrorista da história americana, havia apenas uma página na rede”. Wade Handerson, diretor-executivo da Leadership Conference on Civil Rights — a maior entidade americana de direitos humanos dos EUA e que agrupa 185 entidades aposta em combater este tipo de crime usando a mesma arma dos racistas: "Não temos como censurar a Internet. Uma solução é divulgar idéias de cidadania", afirma. Algumas entidades chegam até a oferecer serviços de bloqueios de sites racistas como é o caso da Anti Defamation League (ADL).
Três Questões insuperáveis para os racistas
Primeiro, a Bíblia declara veementemente que não há diferença, inclusive, até proíbe que se faça acepção (discriminação) de pessoas:
“Mas se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, sendo por isso condenados pela lei como transgressores.” (Tiago 2:9)

As escrituras Sagradas não é menos enfática ao igualar toda a humanidade debaixo de uma só condição espiritual visto sob dois enfoques antagônicos: todos somos criados a imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1.26), este é o lado positivo e; “todos os homens pecaram” (Romanos 3.23), este é o lado negativo da condição espiritual. Se as divisões antropológicas sugeridas estiverem corretas, isto é, as raças caucasóide ("branca"), negróide ("negra") e mongolóide ("amarela"), não importa, todas elas perante Deus são iguais. Por isso, Paulo, inspirado pelo Espírito Santo afirma que "... de um só fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra"(Atos 17:26).
Por isso em Cristo não deve existir nem “judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3.28).
Daí considerarmos o racismo mais que um pecado social, mais que mera questão de cultura. O racismo é uma heresia e das mais perniciosas, pois desobedece e distorce a Palavra de Deus quanto à irmandade de todos os homens enquanto empreende uma luta irracional em prol da superioridade de determinada raça.
Contudo, a Bíblia nos mostra o caminho para vivermos em harmonia não importando as diferenças, “pois para com Deus não há acepção de pessoas.” Romanos 2:11.
“Na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas” Atos 10:34
Segundo, é que do ponto de vista jurídico não há respaldo para tal prática criminosa. O Dr. Eliézer de Mello Silveira que presta assistência jurídica ao Centro Apologético Cristão de Pesquisas – CACP, alerta para o fato de que “também a nossa Legislação Pátria (vide inciso XLII, do artigo 5º da Constituição Federal de 1988), atribui crime inafiançável a prática do racismo, sujeita à pena de prisão”. Mas durante muito tempo nossa legislação negligenciou essa questão, de maneira lenta o racismo passou de mera contravenção penal para crime imprescritível.
E por último, além das razões de cunho espirituais e legal acima expostas, o racismo deve ser repelido também por questão de lógica até: ora, inadmissível crer que se possa determinar, por exemplo, o grau de inteligência, a personalidade ou o seu caráter em razão de sua cor de pele ou nacionalidade. “Ora, desde quando caráter, inteligência, ou quaisquer tipos de valores é medido por intermédio de pigmentos enxertados na pele de um ser humano ou de sua etnia?”, acrescenta o advogado.
Segundo estudos recentes o genoma de um africano pode ter mais semelhanças com o de um norueguês do que com alguém de sua idade. A diferença entre as varias “raças” existentes varia entre 3% a 5%. Em outras palavras, as raças existem mais devido a fatores culturais que biológicos.
Racistas de Cristo: isso é possível?
"Nós, a Ku Klux Klan, reverentemente reconhecemos a majestade e supremacia de Jesus Cristo e reconhecemos sua bondade e divina providência. Erguemos nossos rostos para Deus nosso pai, reconhecendo que este país foi fundado como uma nação Branca sob seus propósitos tais como revelados na Sagrada Escritura." (Credo dos Cavaleiros da Ku Klux Klan do Texas.) (2)
Se é considerado errôneo e repugnante ver uma pessoa humilhar e rejeitar uma outra por considerar-se superior a ela, quanto mais terrível não seria ver tais pessoas tentando justificar esse procedimento apelando para fatores religiosos? A problemática espelha um verdadeiro paradoxo. Na verdade, uma contradição. Pois, com efeito, ninguém em sã consciência poderá dizer, ao menos sem causar embaraço, que embora sirva a Jesus Cristo, que pertence a uma denominação religiosa cristã, se sinta superior a uma pessoa em razão dessa pessoa ser de uma raça diferente da sua: ser negro, ser branco, ser japonês, ser índio, judeu, por exemplo.
Mas por incrível que pareça é essa a postura defendida pela seita conhecida como “Igreja Mundial do Criador”. A seita foi fundada em 1971 na Flórida por Ben Klassen, um ex-corretor de imóveis. É a organização racista que mais cresce nos EUA segundo o jornal The New York Times. Eles possuem um livro chamado “White Bible” (Bíblia Branca) onde pregam o ódio contra judeus e negros e defendem a supremacia da raça branca. Baseado nesta nefasta ideologia Benjamin Nathaniel Smith, membro ativo de extrema direita da seita que chegou a trocar seu nome para August Smith, porque considerava seu nome “excessivamente judeu”, assassinou 1 coreano, 5 judeus e 3 negros, por que os consideravam "pessoas sujas". A seita possui sites pela Internet onde chega até recrutar crianças para seu evangelho de horror.
Os negros nas garras das seitas
Entretanto, apesar da Bíblia, da lei e da lógica serem argumentos demasiadamente fortes contra esta prática pecaminosa, muitos que se dizem espelhar sua conduta na pessoa de Cristo, autodenominando-se “cristãos”, se sentem superiores a outrem por causa da “inferioridade” da cor ou da etnia alheia. Nos séculos passados a escravidão e o tráfico negreiro foram apenas conseqüência dos postulados religiosos da época. No Brasil colonial, dominado espiritualmente pela ordem religiosa dos Jesuítas, os negros não tiveram a mesma sorte que os índios, enquanto estes eram protegidos pelos religiosos (porque contam alguns, que na época, cria-se que os negros não tinham alma, portanto não poderiam praticar religião), aqueles não recebiam nenhum apoio formal da Igreja Católica quanto a isto.
Apesar das seitas advogarem hoje em dia uma ética racial diferente da que foi praticada no passado, nunca é demais mostrarmos o que estes grupos religiosos criam e ensinavam no início a respeito dos negros. É bom lembrarmos também, que enquanto mantinham esta postura preconceituosa (ainda que rebuscada de argumentos mil com o fito de camuflar suas idéias racistas), reivindicavam ao mesmo tempo (como se dá ainda hoje) ser, cada qual, o “único caminho de salvação” para o homem.
O que as seitas diziam sobre os negros?
Veja abaixo o preconceito racial que era pregado entre algumas seitas no início do movimento. Observe a terminologia discriminatória e as sutilezas fraseológicas com que eram empacotadas tais declarações:
1. Os Mórmons e sua teologia racista
“Devo dizer-vos qual é a lei de Deus com relação à raça africana? Se o homem que pertence à semente escolhida [mórmon] misturar seu sangue com a semente de Caim [negros], a penalidade, sob a lei de Deus, é a morte no local. ISSO SEMPRE SERÁ ASSIM.” (Brigham Young, Journal of Discourses [jornal de sermões], vol. 10, pág. 110)
“Vós vedes algumas classes da família humana que são pretas, incultas, indecentes, desagradáveis e baixas em seus hábitos, selvagens e aparentemente privadas de quase todas as bênçãos da inteligência que em geral são concedidas à humanidade...” (Joseph Fielding Smith, The Way to Perfection [O caminho para a perfeição, página 102]
2. Adventistas do Sétimo Dia: conselhos preconceituosos.
"Mas há uma objeção ao casamento da raça branca com a preta. Todos devem considerar que não têm o direito de trazer à sua prole aquilo que a coloca em desvantagem; não têm o direito de lhe dar como patrimônio hereditário uma condição que os sujeitariam a uma vida de humilhação. Os filhos desses casamentos mistos têm um sentimento de amargura para com os pais que lhes deram essa herança para toda a vida". ("Mensagens Escolhidas - vol.2" CPB, Sto. André, SP - 1985 págs. 343 e 344).
“Em resposta a indagações quanto à conveniência de casamento entre jovens cristãos de raças branca e preta, direi que nos princípios de minha obra esta pergunta me foi apresentada, e o esclarecimento que me foi dado da parte do Senhor foi que esse passo não deveria ser dado...Nenhuma animação deve ser dada a casamentos dessa espécie entre nosso povo...” ( op.cit.)
3. Testemunhas de Jeová. Negros: raça inferior criada por Jeová
"As raças negra e latina provavelmente sempre serão inclinadas à superstição." (Torre de Vigia de Sião de 1/4/1908, p. 99 - em inglês)
“...É verdade que a raça branca exibe algumas qualidades de superioridade sobre qualquer outra... há grandes diferenças na mesma família caucasiana... O segredo da maior inteligência e aptidão dos caucasianos, indubitavelmente é, em grande medida, para ser atribuído à mistura de sangue dentre seus diversos ramos; e isto foi evidentemente forçado em larga medida pelo controle divino.” (Torre de Vigia de Sião de 15/7/1902, p. 216 - em inglês)

4.Espíritismo: a reencarnação apóia o racismo

“Nascer, morrer, renascer é o trabalho continuo a que está sujeito o espírito, passando por todas essas transições, desde o tipo boçal ao gênio. Não importa saber quantos milhares de anos foram precisos para tomar as feições humanas, o tempo que demorou na raça indígena e Na Preta, Até Chegar À Branca, e nem as várias nacionalidades que adotou na sua trajetória...” (Contribuições para o Espiritismo, Alexandre Dias, 2 ed., Rio de Janeiro, 1950, pg. 19) (conferir Allan Kardec, O que é o Espiritismo, Edição da Federação Espírita Brasileira, Brasília, 32a edição, sem data, pp. 206-207)
Deus não tolera o racismo
O espírito kukluxKlaniano desses grupos acima demonstram a falta de conhecimento bíblico de seus líderes, pois se lessem as Escrituras Sagradas encontrariam várias citações contra o preconceito racial como por exemplo: “Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas.” Tiago 2:1. Com isto na mente e no coração, jamais teriam cometido esse pecado. Sabendo que muitos da raça negra tiveram participação importante no desenrolar da história bíblica, tais como: Simão o Cirineu, a Rainha de Sabá, o Eunuco etíope, Simão o Níger, Lúcio, líder da igreja em Antioquia. Na história da Igreja Cristã destaque para os mestres negros Tertuliano, Orígenes, Atanásio, Agostinho e outros.
Mas então por que o racismo achou guarida dentro da igreja? Segundo o pastor e sociólogo Paulo de Souza Oliveira uma das razões que levou a essa teologia racista foi devido “...à ganância das nações Européias que lotearam, entre si, o continente africano e desenvolveram uma doutrina poligenista, que advoga o surgimento de casais diferentes. Ensinavam que negros e Asiáticos não descendiam de Adão e Eva...” (4)
Conclusão

Já dizia Jacques d´Adesky, “Na luta contra o racismo, o silêncio é omissão”. Mas só isto não basta, é preciso mais.É necessário mais que denúncia, é preciso conscientização, sobretudo bíblica. O racismo não pode subsistir numa sociedade humana, pois é herético do ponto de vista bíblico; irracional do ponto de vista lógico; e do ponto de vista ético: imoral, maldoso e desumano. Devemos afastar essa falsa idéia de supremacia racial em detrimento das demais pessoas só porque são diferentes. Não podemos ser coniventes com isso. Definitivamente, Deus não tolera o racismo. Se há aqueles que ainda persistem nessa idéia, sugiro que olha para o Evangelho, pois se existe uma raça superior ela se encontra em Deus, pois só Ele é superior. É necessário voltarmos nossa mente e ideais para Jesus Cristo. Ora, diz a Bíblia que àquele que está em Cristo é nova criatura; pois em Cristo tudo se faz novo, tudo se iguala: o negro e o branco, o escravo e o livre o judeu e o gentio, todos são um só em Cristo Jesus. O verdadeiro Cristianismo é isso: igualdade entre nós.

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Notas de Referências
(1) Declaração sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, ONU, 1963.
(2) texasknights.com
(3) Jornal “O Alerta” ano I vol. II (CACP)
(4) Revista Defesa da Fé nº 64
*(Um filme esclarecedor sobre o assunto é “Uma outra História Americana”)
FONTE: CACP

30/09/2008

O FRUTO DO ESPÍRITO



"Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra tais coisas não existe lei” (Gálatas 5:22,23).
Talvez possamos dividir estes noves preciosos dons em três grupos, perfazendo três frutos e cada grupo. Se este for o correto — de forma alguma tem-se certeza! —, o primeiro grupo estaria referindo-se às qualidades espirituais mais básicas: amor, alegria, paz. O segundo grupo indicaria aquelas virtudes que se manifestam nas relações sociais. Pressupomos que considera os crentes em seus diversos contatos uns com os outros e com aqueles que não pertencem à comunidade cristã: longanimidade, benignidade, bondade. No último grupo, se bem que aqui há bastante espaço para divergência de opinião, o primeiro fruto poderia referir-se à relação dos crentes com Deus e sua vontade revelada na Bíblia: fidelidade ou lealdade. O segundo, presume-se, teria a ver com seu contato com os homens: mansidão. O último, à relação que cada crente tem consigo mesmo, ou seja, com seus próprios desejos e paixões: domínio próprio.

Encabeçando o primeiro grupo temos “o maior dos três maiores”, ou seja, o amor (1 Coríntios 13; Efésios 5:2; Colossenses 3:14). Para esta virtude, ver 5:6 e 5:13, acima. Não somente Paulo, mas também João estabelece prioridade a esta graça de abnegação (1 João 3:14; 4:8,19). E igualmente Pedro (1 Pedro 4:8). E assim eles estão seguindo o claro exemplo que lhes deu Cristo (João 13:1,34; 17:26). Apesar de que, assim como estas passagens o revelam, dificilmente seria legítimo limitar estritamente esta virtude tão básica ao “amor pelos irmãos”, todavia, por outro lado, no presente contexto (que fala de contendas, disputas e ciúmes, etc., ver também v.14) a referência pode muito bem ser especialmente a este afeto mútuo. Quando o amor se faz presente, a alegria não pode estar muito longe. Não nos disse o autor que o amor é o cumprimento da lei, e que fazer o que a lei de Deus manda traz deleite? (Salmos 119:16,24,35,47,70,174). Além disso, a verdade desta afirmação torna-se ainda mais clara quando se tem em mente que a capacidade para observar esta ordenança divina é um dom de Deus, sendo um elemento daquela maravilhosa salvação que em seu grande amor concedeu gratuitamente a seus filhos. Além disso, já que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (Romanos 8:28), faz-se evidente que os crentes podem alegrar-se mesmo diante de circunstâncias as mais dolorosas, assim como Paulo mesmo comprovou muitas vezes (Atos 27:35; 2 Coríntios 6:10 “entristecidos, mas sempre alegres”; 12:9; Filipenses 1:12,12; 4:11; 2 Timóteo 4:6-8). Além do mais, sua alegria não é a deste mundo, que é uma diversão superficial e que fracassa em satisfazer as necessidades mais profundas da alma, mas a de Deus é uma “alegria indizível cheia de glória” (1 Pedro 1:8), e um antecipação da alegria radiante que está reservada para os seguidores de Cristo. A paz também é um resultado natural do exercício do amor, pois “grande paz têm os que amam a tua lei” (Salmos 119:165; cf. 29:11 ; 37:11; 85:8). Esta paz é a serenidade de coração, a porção de todos quantos, tendo sido justificados mediante a fé (Romanos 5:1), aspiram ser instrumentos nas mãos de Deus para fazerem que outros também possam compartilhar desta tranqüilidade. Portanto, o possuidor da paz torna-se também um promotor da paz (Mateus 5:9). Portanto, aquele que está realmente consciente desta grandiosa dádiva da paz, a qual recebeu de Deus como resultado da amarga morte de Cristo na cruz, envidará todo esforço para “preservar — dentro da comunidade cristã — a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Efésios 4:3).

A menção da paz é, por assim dizer, um liame natural entre o primeiro e o segundo grupo, porquanto esta virtude é com freqüência contrastada com as contendas entre os homens, e porque este segundo grupo descreve aquelas virtudes que os crentes revelam em seus contatos entre si e com os demais homens. O primeiro dos frutos do Espírito mencionados neste segundo grupo é a longanimidade. Ela caracteriza a pessoa que, em relação àqueles que a aborrecem, se lhe opõem ou a molestam, exerce a paciência. Ela se recusa a entregar-se à paixão ou às explosões de ira. A longanimidade ou paciência não é apenas um atributo humano, mas também divino, visto que o mesmo é atribuído a Deus (Romanos 2:4; 9:22) e a Cristo (1 Timóteo 1:16), bem como ao homem (2 Coríntios 6:6; Efésios 4:2; Colossenses 3:12,13; 2 Timóteo 4:2). Como atributo humano, é inspirado pela confiança de que Deus cumprirá suas promessas (2 Timóteo 4:2,8; Hebreus 6:12). Os gálatas necessitavam muitíssimo de que se pusesse ênfase nesta virtude, já que eles, como já vimos, provavelmente estavam se dividindo pelas contendas e por um espírito partidário. Por outro lado, a longanimidade é uma grande arma contra a hostilidade do mundo em sua atitude para com a igreja. De mãos dadas com essa virtude está a benignidade. Esta é suave e terna. Os primeiros cristãos se recomendavam por meio dela (2 Coríntios 6:6). Este fruto, tal como exercido pelos crentes, nada mais é do que um pálido reflexo da benignidade primordial manifestada por Deus (Romanos 2:4; cf. 11:22). Além disso, somos admoestados a tornar-nos como Ele neste aspecto (Mateus 5:43-48; Lucas 6:27-38). Os Evangelhos contêm numerosas ilustrações da benignidade que Cristo demonstrou para com os pecadores. Para mencionar apenas algumas, ver Marcos 10:13-16; Lucas 7:11-17, 36-50; 8:40-56; 13:10-117; 18:15-17; 23:34; João 8:1-11; 19:25-27. A virtude que completa este grupo é a bondade, que é a excelência moral e espiritual, em todos os aspectos, criada pelo Espírito. No presente contexto, visto que é mencionada depois da benignidade, se refere especialmente à generosidade de coração e de ações.

Finalmente, o apóstolo menciona as três graças que concluem todo o sumário. Primeiro está a fidelidade. O termo como usado no original com freqüência se traduz corretamente pela palavra . Todavia, uma vez que aqui aparece depois de “benignidade” e “bondade”, parece ser mais correto traduzir-se por “fidelidade”. O seu significado é lealdade, fidelidade. Uma vez que nesta mesma carta Paulo se queixa da falta de fidelidade para com ele, o que foi demonstrado através da conduta de muitos dos gálatas (4:16), percebemos que a menção desta virtude, aqui, é algo bastante apropriado. Contudo, em última análise não era tanto para com o próprio Paulo que havia falta de lealdade, e, sim, para com o evangelho — e, assim, para com Desu e sua Palavra —, e tinha estado faltando em proporção elevada, como fica evidenciado por 1:6-9; 3:1; 5:7. Conseqüentemente, com toda probabilidade o que Paulo está recomendando aqui, como um fruto do Espírito, é a fidelidade a Deus e à sua vontade. Contudo, isto não exclui, antes inclui, a lealdade para com os homens. Parece-nos apropriado interpretar aqui o próximo item, ou seja, a mansidão, como sendo a gentileza uns para com os outros e para com todos os homens, principalmente se levarmos em consideração o contexto precedente, o qual fala das dissensões em suas várias manifestações (ver vv. 20 e 21). Cf. 1 Coríntios 4:21. Esta virtude também nos faz lembrar de Cristo (Mateus 11:29; e 2 Coríntios 10:1). A mansidão é o oposto extremo da veemência, da violência e da agressividade ou explosões de ira. A última virtude que Paulo menciona, e por implicação recomenda, é o domínio próprio, que é uma relação que alguém mantém consigo mesmo. A pessoa que tem a bênção de possuir esta qualidade, possui “o poder de conter-se a si mesma”, que é o sentido do termo usado no original. O fato de terem sido mencionadas previamente, entre os vícios enumerados (v. 19), a imoralidade, a impureza e a indecência, revela que era apropriado mencionar o domínio próprio como a virtude oposta. Fica claro que aqui temos referência a muito mais coisas que simplesmente a sexo. Aqueles que realmente exercem esta virtude levam todo o pensamento à submissão e obediência a Cristo (2 Coríntios 10:5).

E prossegue: contra tais coisas não existe lei. Uma vez que Paulo aqui completou uma lista de virtudes, que são coisas, não pessoas, é natural interpretar suas palavras como significando: “contra tais coisas — tais virtudes — não existe lei”. A gramática não proíbe tal construção. Também é óbvio que, à semelhança dos vícios enumerados, esta lista de virtude é apenas representativa. Não podemos mesmo afirmar que todas as excelências cristãs estão incluídas na lista. Portanto, Paulo diz: “contra tais... Ao dizer que contra tais coisas não existe lei, ele está encorajando a cada crente a manifestar estas qualidades, a fim de que, assim procedendo, os vícios possam ser aniquilados”.

O incentivo de que precisamos para exibir estes excelentes traços do caráter foi fornecido por Cristo, pois é devido à gratidão que os crentes sentem para com Cristo que os usam para adornar sua conduta. O exemplo, também, em conexão com todos eles, foi dado por ele. E as próprias virtudes, associadas ao poder para exercê-las, são doadas pelo seu Espírito.

Embora Paulo tenha qualificado as virtudes enumeradas de “o fruto do Espírito”, agora ele desvia a ênfase do Espírito para Cristo. Se ele pôde fazer isso tão prontamente, é devido ao fato de que quando o Espírito ocupa o coração, Cristo também o faz (Efésios 3:16,17). Cristo e o Espírito não podem ser separados entre si. Cristo mesmo habita a vida interior dos crentes “no Espírito” (Romanos 8:9,10). O Espírito não foi dado por Cristo? (João 15:26; 2 Coríntios 3:17). A razão para esta mudança de ênfase é que o apóstolo lembrará os gálatas de que eles crucificaram a carne. Isso, naturalmente, chama a atenção imediatamente para Cristo e sua cruz. E assim Paulo prossegue [...]
FONTE: w.monergismo.com/textos/frutos/fruto_espirito_hendriksen.htm">O Fruto do Espírito - William Hendriksen