10/07/2010

O Tesouro de Davi - Salmo 13

Comentário ao Livro dos Salmos, compilados por Spurgeon
leia o
SALMO 13 


É costume chamar a este Salmo «Até quando?» Quase diríamos que é o Salmo do gemido, pela incessante repetição do grito «Até quando?»

Vers. 1. Até quando? Esta pergunta repete-se não menos de quatro vezes. Corresponde ao intenso desejo de libertação e à grande angústia do coração. E não tem por que não haver um pouco de impaciência mesclada com isso; não é este o retrato mais fiel da nossa própria experiência? Não é fácil prevenir e evitar que os desejos degenerem em impaciência. A aflição prolongada parece representar abundante corrupção; pois o ouro que tem de permanecer muito tempo no fogo, é porque contém muita escória que tem de ser consumida; daí que a pergunta Até quando? possa sugerir uma busca profunda do coração.

Até quando, SENHOR? Esquecer-me-ás para sempre? Ah, Davi!, que néscias são estas palavras! Pode Deus olvidar? Pode o Omnisciente falhar na lembrança? Acima de tudo, pode o coração do SENHOR esquecer o Seu filho amado? Ah, irmãos, expulsemos para longe de nós a ideia, e escutemos a voz do nosso Deus do pacto, por boca do profeta: « Eis que nas palmas das minhas mãos eu te gravei; os teus muros estão continuamente diante de mim.»! (Is 49:16 ACF)

Para sempre. Que pensamento tão tenebroso! Sem dúvida era bastante suspeitar dum esquecimento temporário, mas faremos uma pergunta ingrata e imaginaremos que o Senhor vai abandonar para sempre o Seu povo? Não, a Sua ira pode durar uma noite, mas o Seu amor permanece eternamente. C. H. S.

Até quando esconderás o teu rosto de mim? O que é que há no nosso coração ou na nossa vida pelo qual Deus esconde o Seu rosto e franze o cenho sobre nós? Timothy Rogers

Tal como a noite e as sombras são boas para as flores, e a luz da Lua e o rocio são melhor que o Sol contínuo, assim também a ausência de Cristo tem o seu uso especial e um pouco de virtude nutritiva, e dá seiva à humildade, e aviva o apetite, e provê um campo livre para que a fé faça acto de presença e exercite os seus dedos para alcançar o que não vê. Samuel Rutherford, 1600-1661.



Vers. 1, 2. O que diz o provérbio francês da enfermidade é que é o verdadeiro de todos os males, porque vêm a cavalo, mas vai-se a pé.Joseph Hall

O cristão, enquanto está no mundo, vive num clima insalubre; por um lado, os deleites do mesmo amortecem o seu amor a Cristo; por outro, a tribulação com qual se encontra debilita a sua fé na promessa. William Gurnall

Vers. 2. Até quando? Há muitas situações na vida do crente em que as palavras deste Salmo podem ser uma consolação e ajuda para reviver a fé que se afunda. Certo homem que jazia junto à piscina de Betesda, tinha uma enfermidade há trinta e oito anos (João 5:5). Uma mulher que tinha um espírito de enfermidade passou dezoito anos antes de ser «libertada» (Lucas 13:11). Lázaro, toda a sua vida tinha sofrido da enfermidade e de pobreza, até que foi libertado pela morte e transferido para o seio de Abraão (Lucas 16:20-22). Assim pois, todo o que se sinta tentado a usar as queixa deste Salmo tenha a segurança no seu coração de que Deus não esquece o Seu povo, que no fim a ajuda virá, e, enquanto isso, todas as coisas cooperam para bem em favor dos que O amam. W. Wilson, DD Wilson, DD

Assim pois, o leitor cuidadoso notará que a pergunta Até quando? apresenta-se em quatro formas. A pena do escritor vê-se: conforme parece, segundo é, conforme o afecta a ele por dentro, e aos seus inimigos por fora. Todos somos propensos a bater mais no ceguinho. Como no nosso ditado “a cão cego todos atiram pedras”. Colocamos enormes lousas tumulares sobre as tumbas das nossas alegrias, mas quem pensa em erigir monumentos de louvor, pelas misericórdias recebidas? Escrevemos quatro livros de Lamentações e só um de Cantares, e achamos que são muitos mais em casa os gemidos do Misere que o canto de Te Deum.



Vers. 5. Mas eu em tua misericórdia tenho confiado; o meu coração se alegrará na tua salvação. Que mudança vemos aqui! Vede, a chuva terminou, e de novo os pássaros cantam. O coração de David estava desafinado, com mais frequência, do que a sua harpa. Começa muitos dos seus salmos suspirando, mas termina-os cantando. C. H. S.

Vers. 6. Cantarei ao SENHOR pelo bem que me tem feito. O mundo maravilha-se de como podemos estar tão contentes sob desgraças tão extremas; pois o nosso Deus é Omnipotente. Ele volta a desgraça em felicidade. Crede-me não há gozo no mundo comparável ao que desfrutam os filhos de Deus sob a cruz de Cristo. Posso falar por experiência, e portanto, crede-me, não temais nada do que o mundo vos pode fazer, porque quando aprisionam os vossos corpos, deixam as vossas almas em liberdade para conversardes com Deus; quando nos arremessam e esmagam, levantam-nos; quando nos matam, então enviam-nos para a vida eterna. Que maior glória pode haver que o sermos conformados à nossa cabeça, Cristo. E isto fá-lo a aflição. Oh bom Deus!, o que sou eu, para que me concedas uma misericórdia tão grande? John Trapp

Nunca soube o que era Deus estar a meu lado em todas circunstâncias e em toda a oferta com que me aflige Satanás, etc., conforme tenho visto e achado que Ele faz desde que vim para este lugar; porque, eis aqui, quando se apresentaram temores, vieram com eles ânimo e apoio; sim, quando comecei, como se disséssemos com nada, excepto com a minha sombra, Deus com a Sua ternura não permitiu que fosse molestado, mas com um versículo ou outro da Escritura fortaleceu-me contra tudo, até ao ponto que com frequência tenho dito: Se isto fosse legítimo, pediria em oração maiores tribulações para conseguir maiores consolos. Eclesiastes 7:14, 2 Coríntios 1:5. John Bunyan, 1628-1688.


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Tradução: Carlos António da Rocha

El Tesoro de David, C.H.Spurgeon, edição em pdf de 747 páginas, encontrada sem restrições na 'rede'.

FONTE: No Caminho de Jesus

VIA:   O Tesouro de Davi - Salmo 13 | Projeto Spurgeon

09/07/2010

As Prostitutas chegarão antes que vocês no Reino de Deus

 


Forte esta palavra não?
Acredite se quiser, mas isso não saiu da boca de um homem qualquer, são palavras do próprio Jesus. Agora que tenho a sua atenção é importante salientar alguns pontos rápidos:
1) - Jesus falou isso para os RELIGIOSOS da época que não reconheciam Ele como filho de Deus;
2) - Jesus uniu as duas profissões: os PUBLICANOS e as PROSTITUTAS no mesmo segmento. "...os publicanos e as meretrizes entram na frente de vós no reino de Deus." - Mt. 21:31;
3) - Acredito que dois motivos levaram Jesus a falar isso. 1- Tanto as prostitutas quanto os publicanos colocavam o DINHEIRO como prioridade nas suas vidas. 2- Muitos publicanos e prostitutas se converteram com a pregação de João Batista, mas os príncipes dos sacedortes religiosos e os anciãos não se converteram;
4) - Jesus não fez uma apologia à prostituição, mas de maneira direta disse que não importa a sua profissão nem a sua posição religiosa, importa o SEU CORAÇÃO. E se vc aceitou a palavra de Deus e deixou ela converter os seus caminhos e pensamentos, então o reino de Deus é pra vc independente do que os outros pensam sobre vc.
5) - A colocação para hoje seria a seguinte:

Uma prostituta, um político corrupto ou um estuprador arrependido valem mais para Deus que um pastor, padre ou um sacerdote que pensa já estar justificado pelas suas obras e pela sua religiosidade.


Leia Mateus 21:28-32
Abraço a todos
EM CRISTO, aquele que sempre nos impressiona.

Por: Soli Limberger

              FONTE:   Buscai o Reino: As Prostitutas chegarão antes que vocês no eino de Deus

08/07/2010

Sabedoria Bíblica: Esperança

 

Capítulo 15: Esperança

Ovos são ovos, mas alguns apodrecem; da mesma forma esperanças são esperanças, mas muitas delas transformam-se em desilusões. As esperanças são como as mulheres, há um toque de anjo nelas, mas há duas espécies delas. Meu garoto Tom furou um monte de ovos de passarinho, enfiando-os em um fio; eu tenho feito a mesma coisa com as esperanças, eis algumas delas – boas, más e indiferentes.


A esperança do homem otimista aparece inesperadamente, como uma caixa de surpresas; ela funciona como um verão e não é guiada pela razão. Em qualquer momento que olha pela janela, ele vê tempos melhores chegando; apesar de quase tudo estar em seu modo de ver, e em nenhum outro lugar, ver pudim de farinha com passas na lua é um hábito bem mais feliz que resmungar de tudo como um sapo de duas pernas. Esse é o tipo de amigo para se ter por perto em uma noite negra como piche e em que chove muito, pois ele leva velas nos olhos e uma lareira no coração. Tome cuidado para não ser desencaminhado por ele e, assim, você pode manter sua companhia com segurança. O erro dele é contar com os ovos antes de ter a galinha e vender seus arenques antes que estejam na rede. Todos seus ovos de pardais estão reservados a se transformarem, pelo menos, em tordos, talvez em perdizes ou faisões. O verão chegou em sua plenitude, porque ele viu uma andorinha. Ele está certo de ficar rico com sua nova loja, pois cinco minutos antes de abrir a porta, dois vizinhos se aproximaram, um deles querendo um pão fiado, e o outro, trocar dinheiro. Ele está certo de que o fazendeiro está disposto a lhe dar suas encomendas, pois ele o viu lendo o nome da loja acima da porta enquanto passava em frente. Ele não acredita em erros entre xícaras e lábios, mas deduz certezas do talvez. Bem, é uma alma boa apesar de, às vezes, ser um pouco estúpido, há muito nele para ser louvado e gosto de pensar em um de seus curiosos ditos: "Nunca fale em morrer até estar morto porque aí não adianta mais, portanto deixe isso para lá." Como você vê, há outras pessoas curiosas no mundo, além do João Lavrador.

Meu vizinho desajeitado está esperando que sua tia morra, mas a velha senhora tem tantas vidas como nove gatos. Minha opinião é que quando ela morrer, deixará o pouco de dinheiro que tem para um hospital de gatos ou para cães abandonados, em vez de deixá-lo para seu sobrinho Joãozinho. Pobre criatura, ele está terrivelmente desesperado e desconta tudo no temperamento irritante da pobre senhora. Contudo, ele espera e fica cada vez pior, pois enquanto a grama cresce, o cavalo morre de fome. Quem espera a morte de alguém é como se segurasse uma corda longa, quem corre atrás de heranças precisa ter sapatos de ferro. Quem espera os sapatos dos que morrem pode ficar por muito tempo descalço; quem espera pela vaca do tio, não pode se apressar para passar manteiga no pão. Quem vive de esperança tem uma dieta magra. Se o Joãozinho desajeitado não tivesse uma tia, ele teria arregaçado as mangas da camisa e trabalhado para si mesmo; mas disseram-lhe que nasceu em berço de ouro, e isso transformou-o em um inútil.

Se alguém quiser deixar uma herança para o João Lavrador, ele ficará muito agradecido, mas seria melhor que não contar a ele sobre isso, pois tem medo de deixar de arar um sulco tão bem feito; seria duas vezes melhor receber uma herança de surpresa. Na verdade, seria melhor deixar a herança para o Colégio do Pastor ou para o Orfanato Stockwell, pois nos dois casos seria muito bem usada. Agora, precisamos voltar ao nosso tema.

Eu gostaria que as pessoas pensassem menos na sorte inesperada e plantassem mais macieiras. Esperanças que crescem do lado de fora das sepulturas são erros graves; e quando elas enfraquecem a energia do homem, são como a corda da forca balançando em volta do pescoço dele.

Algumas pessoas nasceram no primeiro de abril e estão sempre esperando sem sentido ou razão. Seu barco chegará logo; elas encontrarão um pote de ouro ou ouvirão alguma coisa que lhes traga vantagem. Pobres tolos, eles têm cabeça de vento e sonham acordados. Eles mantêm a boca aberta um bom tempo antes que o ovo frito e o presunto cheguem até ela, e são realmente capazes de acreditar que, um dia, algum golpe de sorte ou algumas maçãs de ouro derrubadas pelo vento os tornarão independentes e os transformarão em cavalheiros. Eles esperam dirigir carruagens, e logo, logo estarão fechados em um lugar em que as carruagens não cabem. Você pode assobiar por um bom tempo antes que os pintassilgos saltem em seu polegar. De vez em quando, um homem em um milhão tropeça na fortuna, mas milhares se arruínam com expectativas inúteis. Espere obter metade do que você ganha, um quarto do que deve e nada do que emprestou, e você estará próximo da meta, mas esperar que uma fortuna caia da lua é ser muito tolo. Um homem deve esperar pelas promessas de bem do Antigo Testamento dentro dos limites da razão. A esperança repousa em uma âncora, mas a âncora deve ter algo em que se segurar e algo para segurar. Uma esperança sem motivo é um barco sem fundo, um cavalo sem cabeça, um ganso sem corpo, um sapato sem sola, uma faca sem lâmina. Quem a não ser o Simão Simplório começaria a construir uma casa pelo telhado? Precisa haver um alicerce. Esperança é esperança, mas é uma loucura total esperar por coisas impossíveis, ou esperar a colheita sem semear, ou pela felicidade sem fazer o bem. Essas esperanças não levam a nada; elas são como a lanterna feita na abóbora e levam o homem para o fosso. No asilo há um homem, o pobre Will, que sempre diz que possui uma grande fazenda, só que o proprietário legal o mantêm fora dela; seu nome é Jenyns ou Jennings, e conforme diz ele, alguém com esse nome deixou dinheiro suficiente para comprar o Banco da Inglaterra, e, um dia, Will vai ter sua parte nesse dinheiro. Contudo, nesse meio tempo, o pobre Will descobre que apenas a sopa da igreja é muito pouco para o estômago de um senhor tão importante, ele me prometeu mil ou dois mil do dinheiro excedente quando conseguisse sua fortuna, construirei um castelo no ar com isso e cavalgarei em um cabo de vassoura para chegar nele. Pobre infeliz, como muitos outros, ele tem moinhos de vento na cabeça, mas, se tiver de dar qualquer coisa, é bastante parcimonioso. Fiando-se nisso, semear no ar não é apenas muito lucrativo como é fácil, aquele espera obter mais do que consegue com o próprio ganho tem a ilusão de encontrar abricós em uma árvore de maçãs azedas. Quem casa com uma garota que se veste de modo relaxado e espera fazer dela uma boa esposa poderia, da mesma forma, comprar um ganso e esperar que ele se transformasse em uma vaca leiteira. O que leva seus filhos para o bar e confia que eles crescerão sóbrios, põe sua cafeteira no fogo e espera vê-la brilhar como estanho novo. Os homens não podem estar em seu juízo quando fazem cerveja com malte ruim e esperam ter cerveja de boa qualidade ou dão um mau exemplo e esperam criar uma família respeitável. Você pode esperar e esperar até seu coração ficar doente, mas, quando você mandar seu filho subir na chaminé, ele desce sujo apesar da sua esperança. Ensine uma criança a mentir e espere que ela cresça honesta; seria melhor pôr uma vespa em um barril de piche e esperar que ela fizesse mel para você. Quando será que as pessoas vão agir com sensatez com seus filhos? Nunca, se elas mesmas não forem sensatas.

Quanto ao próximo mundo, é uma grande pena que os homens não tenham um pouco mais de cuidado quando falam dele. Se um homem morrer bêbado, alguém dirá: "Espero que ele tenha ido para o céu". Tudo bem em desejar isso, mas esperar é uma outra coisa. Os homens viram o rosto para o inferno e esperam chegar ao céu, eles caminham dentro do lago e esperam ficar secos? Esperanças do paraíso são coisas solenes e deveriam ser experimentadas pela palavra de Deus. Um homem poderia da mesma forma esperar, conforme diz nosso Senhor, colher uvas de espinhos ou figos de cardos, assim como procurar por um futuro feliz no final de uma vida ruim. Só existe uma rocha sobre a qual se constroem as esperanças boas, e ela não é Pedro, como diz o papa; nem os sacramentos, como dizem os filhotes da besta da velha Roma; mas os méritos do Senhor Jesus. Toda esperança do homem está no "homem Jesus Cristo". Nós somos salvos se cremos nele , pois está escrito "que aquele que crê tem a vida eterna". Ele tem vida eterna agora, e ela é para toda a eternidade, de modo que não se deve temer perdê-la. Nisso se apóia João Lavrador, e ele não tem medo de ser confundido, pois isso é um sustentáculo e dá-lhe esperança segura e imutável que nem a vida nem a morte podem abalar. Portanto, por favor, lembrem-se de que a presunção é uma escada que quebra o pescoço de quem a sobe, se você ama sua alma não tente fazer isso.

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NOTA

Reproduzido pelo Projeto Spurgeon com permissão da Shedd Publicações

Sabedoria Bíblica; Conselhos simples para pessoas simples, de C.H. Spurgeon Copyright © Shedd Publicações 1a Edição - Dezembro de 2006 Tradução: Neusa Faraco Skliutas (Todos os direitos reservados por Shedd Publicações, São Paulo, Brasil)

PROIBIDO a REPRODUÇÃO DESSA POSTAGEM E DE SEU CONTEÚDO SEM CITAR ESSA LICENÇA E OS LINKS DA SHEDD PUBLICAÇÕES E DO PROJETO SPURGEON, NA ÍNTEGRA , AO FINAL DA REPRODUÇÃO

fonte: Sabedoria Bíblica: Esperança | Projeto Spurgeon

07/07/2010

JEOVÁ NO BANCO DOS RÉUS

 João Heliofar de Jesus Villar


 

 

 

 

 

 

Há quem diga que é um exagero, mas não seria de todo inexato dizer que devemos, ao menos em parte, o cânon bíblico a um herege que, mesmo herege, não deixou de prestar um serviço relevante à história da Igreja. Márciom, no segundo século, decidiu quais deveriam ser os textos inspirados e criou o primeiro cânon. Era uma seleção singular. O Deus do Antigo Testamento foi deixado de lado, porque não se coadunava com a revelação graciosa que ele identificou em Jesus de Nazaré. Desse modo, seu cânon era uma cuidadosa seleção de escritos, com especial destaque para as cartas de Paulo, o grande teórico da doutrina da graça. O que lhe parecia incompatível com esses ensinos foi cuidadosamente eliminado. Jeová, com suas guerras sangrentas, com suas imprecações e demonstrações de ira, obviamente nada tinha a ver com o Espírito gracioso que se manifestou na pessoa de Cristo. Num movimento notável, Márciom expurgou Jeová da Bíblia.
O desafio obrigou a Igreja a definir o que efetivamente era canônico; isto é, dentre os escritos que corriam nas igrejas, o que poderia ser julgado como divinamente inspirado. Os pais da Igreja e as principais autoridades que defendiam a ortodoxia formularam suas listas que, depois de inúmeros debates que se estenderam até o quarto século, terminaram na confecção do que hoje aceitamos como as escrituras sagradas.
A heresia de Márciom foi superada e a herança do Antigo Testamento foi integralmente preservada pela ortodoxia. Apesar disto, é de se reconhecer que se Márciom está morto, o cadáver é difícil de enterrar. De quando em quando seu fantasma reaparece para nos assombrar. Mesmo hoje, não é raro vermos Jeová sentado na cadeira dos réus, acusado de ser mera projeção das tendências sanguinárias do povo de Israel. Um Deus tribal, sedento de sangue, ciumento, iracundo, que não pode corresponder ao Deus de amor revelado nas páginas do Novo Testamento. Mesmo dentro da igreja há autores que atribuem tantos vícios ao Deus do Antigo Testamento quanto o rosário de maldades que Dawkins lançou sobre Jeová na sua propaganda neoateísta: “Deus, um Delírio”.
Qual a razão desse fenômeno? Por que é intelectualmente desconfortável defender o Deus do Antigo Testamento, o Senhor dos Exércitos de Israel?
É difícil encontrar uma resposta só, porém uma pista que parece certeira aponta para o fato de que não há nada mais incompatível com o humanismo secular – que de tão perto nos assedia - do que um personagem que não submete seu padrão de justiça a nenhum paradigma culturalmente justificável. Não é difícil verificar atos de juízo na Bíblia, que são escandalosos do ponto de vista secular. Um padrão de justiça dessa natureza, incorretíssimo politicamente, inevitavelmente levaria o respectivo juiz à reprovação geral.
Note por exemplo o episódio da execução de Uzá em 2 Samuel 6. A Bíblia relata que Davi resolveu trazer de volta a arca da aliança para Jerusalém, décadas depois de o objeto sagrado ter sido retirado da cidade santa. Durante o transporte, feito em carros de bois, um dos animais tropeça e a arca está para cair no chão, momento em que Uzá estende a mão para evitar a queda. Por ter tocado na arca ele cai fulminado no chão.
Que Deus é esse? Por que matar um ser humano pelo fato de ele tocar num utensílio? É razoável?
Porém, esse texto e outros, como o que vemos na história dos filhos de Aarão em Levítico 10, revelam um contraste fatal entre a santidade de Deus e o pecado do homem. A inimizade é mortal. Ninguém viola impunemente os limites da santidade de Deus. O homem é pecador – cuide como haverá de se aproximar do seu criador. Mas como explicar isso aos nossos amigos da academia, à “Folha de São Paulo”, a Hollywood? Essa perspectiva nunca encontrará trânsito confortável numa cultura secular. Daí a solução de Márciom ser tão providencial e sedutora: vamos eliminar o inconveniente, expurgando esse Deus santo da Bíblia.
O interessante é que a proibição de se tocar nos utensílios do santuário – entre os quais estava a arca - está expressa, sob pena de morte, em Números 18.3. Mas quando a execução chega, quando uma vida humana é tirada com base numa transgressão humanisticamente irrelevante, secularmente inaceitável, o choque é inevitável. É fácil dizer que o salário do pecado é a morte, o difícil é testemunhar a concretização dessa sentença.
Devido aos efeitos da absoluta dessacralização da cultura no pós-modernismo e de todo o movimento que tomou conta do último século no pós-guerra, somos a mais informal, a mais profana de todas as gerações. Profana não no sentido escandaloso do termo, mas no sentido de que ninguém antes ignorou (ou não compreendeu) o sagrado como esta geração. Gostamos de falar em graça e suspeitamos de que aquele que insiste em enfatizar santidade sofra de algum tipo de tara moralista.
Nós, como Márciom, corremos o risco de julgar repugnantes os atos de Jeová no caso de Uzá, dos filhos de Aarão etc. Por que Davi e Aarão não reagiram assim? Por que permaneceram – como nos parece - inacreditavelmente submissos? Por que os pais da igreja não seguiram a Márciom e não aceitaram o seu conselho de expurgar o Deus de Moisés? Por que não ficar apenas com o Deus de amor, revelado em Jesus Cristo?
Na verdade o mal está em nós, em nossa cultura. Os nossos antepassados não se impressionavam com os atos de juízo de Deus, simplesmente porque não eram humanistas. Não viam o mundo a partir de uma lente antropocêntrica. Ao revés, eram teocêntricos até o pescoço. O que lhes parecia incompreensível não era a justiça de Deus, mas sim o fato de que um Deus santo pudesse exercer misericórdia diante do homem pecador. Para eles, chocante era a misericórdia, não o juízo. O juízo sempre foi merecido. O escândalo – feliz escândalo – é que um Deus santo possa exercer misericórdia diante do que realmente somos
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• João Heliofar de Jesus Villar, 45 anos, é procurador regional da República da 4ª Região (no Rio Grande do Sul) e cristão evangélico.

FONTE:  Editora Ultimato - formação e informação