22/08/2010

EZEQUIAS RELOADED

Por: Karl Heinz Kienitz

 

 

 

 

 

 

“Estude ... e leia, especialmente biografias” é uma recomendação dada a líderes por Stephen Lorenz, general dos Estados Unidos que deixa o serviço ativo da sua força aérea por estes dias. Na busca de conhecimento de liderança, o “enfoque biográfico” é interessante: enfatiza a prática. Ao cristão que o adota chama atenção a história de Ezequias – entre outras certamente. Ele esteve à frente do povo de Judá numa época conturbada, obtendo êxitos expressivos a despeito das grandes dificuldades que enfrentou. Como que para enfatizar o caso Ezequias, sua história é assunto relativamente extenso de três autores bíblicos1.
Ezequias assumiu o governo de um país em ruínas; as perspectivas do reino de Judá eram as piores possíveis. Em batalha desastrada, seu pai Acaz havia conduzido multidões à morte num só dia. Mulheres e crianças chegaram a ser deportadas. O templo estava fechado e “despachos” eram feitos por toda Jerusalém. Mas lemos sobre Ezequias: “Tinha vinte e cinco anos de idade quando começou a reinar, e vinte e nove anos reinou em Jerusalém... No Senhor Deus de Israel confiou, de maneira que depois dele não houve quem lhe fosse semelhante entre todos os reis de Judá, nem entre os que foram antes dele. Porque se chegou ao Senhor, não se apartou dele ... para onde quer que saía se conduzia com prudência...”
Como o jovem Ezequias pode “dar a volta por cima”? O texto bíblico apresenta dois fundamentos para a atuação de Ezequias: uma decisão pessoal genuína em resposta à chamada de Miqueias ao arrependimento, e um relacionamento de fé (confiança) com Deus. Mais tarde o rei Josias seria apresentado como o rei mais fervoroso, porém o que lemos sobre Ezequias não deixa dúvida sobre seu pragmatismo confiante, fruto de uma fé madura.
Alicerçado em sua experiência pessoal, e apesar de todas as mazelas econômicas e militares da nação, Ezequias elegeu como primeira prioridade uma reorientação espiritual e de valores do seu povo: “... no primeiro ano do seu reinado, no primeiro mês, abriu as portas da casa do Senhor”. Inicialmente o jovem rei convocou os líderes do povo a um recomeço; infundiu-lhes dedicação e entusiasmo; soube vencer a inércia de alguns; e alavancado no apoio dos líderes reformou sua nação. As chaves para o sucesso desse processo foram: o “treinamento” de líderes; a ação pastoral de Ezequias; a bênção de Deus; e a manutenção de uma vida espiritual equilibrada.
Sob Ezequias a vida espiritual em Judá distinguiu-se por uma espiritualidade autêntica. Durante todo seu governo homens como Isaías, Miqueias e Oseias chamaram ao arrependimento, anunciaram a esperança do Messias e exortaram o povo a viver nos padrões de Deus. Os Provérbios transcritos pelos homens de Ezequias (Pv 25-29) documentam a qualidade do ambiente espiritual e social em Judá. Eis dois exemplos: “Se o seu inimigo estiver com fome, dê comida a ele; se estiver com sede, dê água”; “Um país sem a orientação de Deus é um país sem ordem. Quem guarda a lei de Deus é feliz”.
O ambiente em Judá refletia a qualidade da vida espiritual e o conhecimento do rei. Ezequias aprendeu que Deus cumpre o que promete, que tudo coopera para o bem de quem ele ama e que seu perdão é definitivo. Ezequias o expressou da seguinte forma: “Que direi? Como me prometeu, assim o fez... Eis que foi para a minha paz que tive grande amargura, mas a ti agradou livrar a minha alma da cova da corrupção; porque lançaste para trás das tuas costas todos os meus pecados”.
Da atenção à primeira prioridade resultou estabilidade individual e coletiva, viabilizando significativas realizações. Ezequias fortificou cidades, reaparelhou o exército e fortaleceu a segurança derrotando os filisteus. Em Jerusalém mandou construir um aqueduto através de rocha maciça, conhecido como o aqueduto de Ezequias e tido como uma das admiráveis obras de engenharia da Antiguidade.
Imprevistos desafiadores não tardaram. “Depois destas coisas e destes atos de fidelidade, veio Senaqueribe, rei da Assíria, e... acampou-se contra as cidades fortes, a fim de apoderar-se delas.” A reação de Ezequias mostra sua confiança incondicional em Deus e seu motivo para pedir intervenção divina é aprovado. Durante a crise, Ezequias continuou buscando conselho e valendo-se de trabalho em grupo. Assim como no início do seu reinado, o apoio dos líderes foi fundamental e o contato com a comunidade evitou a histeria coletiva quando tudo parecia perdido.
Um segundo imprevisto grave ocorreu mais ou menos à mesma época. “Naqueles dias Ezequias adoeceu de uma enfermidade mortal...” A doença levou Ezequias novamente a refugiar-se em Deus e levar a ele sua grande consternação. O texto bíblico não detalha os motivos da tristeza de Ezequias. Conjecturo que além da perplexidade pessoal com a morte iminente, havia pelo menos mais outra razão: o rei percebeu o grande risco da sua falta para a estabilidade da nação – não tinha então sucessor. Sua humildade e fé madura o levaram a reconhecer após sua convalescença: “Eu sei que foi para o meu próprio bem que sofri tanta aflição”.
Praticamente na sequência Ezequias é submetido a outra provação com propósito bem específico: “... quando vieram embaixadores de Babilônia, para se informarem do milagre da sua cura, Deus deixou-o agir sozinho, sem interferir, para que se revelasse inteiramente o seu caráter”. Durante a visita dos embaixadores, Ezequias agiu com um misto de credulidade, precipitação e orgulho, mas reconheceu seu erro ao ser interpelado por Isaías. Infelizmente o dano já estava feito e a resposta dada pelo rei a Isaías sugere que saúde e conforto fizeram Ezequias perder a visão além do horizonte da própria vida, algo que no momento da sua enfermidade parecia ser diferente. Essa negligência culminou em uma sucessão desastrosa. A diretriz colocada por Ezequias, “... o pai aos filhos faz notória a tua verdade”, não foi implementada com sucesso na educação do seu filho e sucessor Manassés. Judá passaria por momentos tenebrosos nas mãos de Manassés que, tão somente pela graça de Deus, acabaria se voltando à fé de seu pai após muita dor. Assim a parte final da história de Ezequias fornece impulsos importantes para refletir sobre um assunto atualíssimo: liderança, sucessão e continuidade institucional.
Eis um sumário de algumas lições de liderança que podem ser aprendidas do caso Ezequias:
a) Uma decisão pessoal genuína e um relacionamento de confiança com Deus são bases sólidas para uma liderança transformadora.
b) A chave para um grupo são seus líderes, mas eles precisam ser preparados e estimulados.
c) Duma vida espiritual equilibrada resultam estabilidade individual e coletiva.
d) Credulidade, precipitação e orgulho são perigos que rondam o líder, até mesmo o líder experiente.
e) Sucessão não se resolve sozinha e muito menos “do dia para a noite”. Falhas no processo sucessório comprometem a continuidade institucional e destroem conquistas anteriores.
f) A graça de Deus nos sustenta: “... da tua parte, Senhor nosso Deus, respondias às suas orações, e estavas sempre a perdoar-lhes as suas maldades, ainda que sejas um Deus castigador de tudo o que for pecado” (Sl 99.8).
Notas
1. Este texto se refere à história do rei Ezequias de Judá como anotada em 2 Reis 18-20, 2 Crônicas 29-32, Isaías 36-39 e Jeremias 26.17-19. Citações bíblicas seguem versões de Almeida, Bíblia na Linguagem de Hoje ou O Livro.
• Karl Heinz Kienitz recebeu o doutorado em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica Federal de Zurique, Suíça. É professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica em São José dos Campos, e tem atuado como docente voluntário no treinamento de líderes pelo Haggai Institute em Maui e Cingapura. Karl mantém uma página Internet sobre fé e ciência no endereço www.freewebs.com/kienitz.

Fonte: Editora Ultimato - formação e informação

21/08/2010

Que avivamento é esse?

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Teologia Narrativa, Teologia Quântica, Ortodoxia Generosa… É extensa a lista de ensinos estranhos que tem invadido a Igreja brasileira nos últimos anos e pode transformar o crescimento evangélico em uma estatística vazia.

“Peça! Qualquer coisa que você quiser. Por exemplo, a sua casa própria. Mas não de qualquer jeito. Antes, pense como você a quer. Imagine-a como um sobrado no estilo casarão, pintada de branco, com janelas de madeira e um lindo jardim com rosas, margaridas e uma árvore frondosa, sob a qual é possível descansar deitado no verde gramado.”

O pensamento pode não ter durado mais do que os 15 segundos que você levou para chegar até aqui. Mas certamente terá efeito duradouro. E quem garante isso não são os gurus do pensamento positivo. Na verdade, o que você acabou de ler acima é uma pregação que já pode ser ouvida nos púlpitos de muitas igrejas evangélicas brasileiras. Cada vez mais, ensinos e teorias tão diversificados quanto contrários à chamada ortodoxia – a teologia mais conservadora – mudam a cara do cristianismo brasileiro. Como a “visualização”, em que a pessoa projeta em sua mente aquilo que quer, essas doutrinas entram com extrema sutileza para satisfazer necessidades temporais. Em geral, estão intimamente ligadas a teorias contemporâneas, modernas e pós-modernas. O nome que recebem dentro das faculdades teológicas e templos, espelha bem a mistura: Teologia Narrativa, Teísmo Aberto, Teologia da Esperança, Ortodoxia Generosa, Teologia Quântica, Evangelho da Auto-ajuda. Enquanto seus defensores exaltam suas virtudes, afirmando tratar-se de uma renovação na Igreja, diversos especialistas alertam: realmente a religião, depois desses ensinos, não será mais a mesma. Mas isso, porque está se distanciando do cristianismo bíblico e rumando para a heresia.

Nessa caminhada, um dos casos mais emblemáticos é o do pensamento positivo. A fórmula simples – “pense, acredite, receba” -, apresentada no livro O Segredo pela australiana Rhonda Byrne, já conseguiu convencer multidões mundo afora de que é possível conseguir a cura de doenças, a realização de grandes paixões e adquirir jóias e fortuna como num passe de mágica. “No momento em que você deseja alguma coisa, e acredita, e sabe que já a tem no invisível, o Universo inteiro se move para deixá-la visível”, defende a própria Rhonda, que alega ter redescoberto essa “verdade” milenar junto a sábios, filósofos, cientistas e gente de sucesso. A febre causada pelo tal segredo é tamanha que mais de 2 milhões de cópias em DVD e outros 13 milhões de livros foram vendidos no mundo todo.

Rhonda transformou-se no exemplo máximo da fórmula, sendo apontada como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time e amealhando uma fortuna estimada em US$ 50 milhões. Não é um caso isolado. Com roupagem científica e nome pomposo, a “lei da atração” hoje é divulgada por nomes como Esther Hicks, Michael Losier, Deepak Chopra em livros e filmes com nomes sugestivos do tipo Quem Somos Nós?.

Tolice ou não, a questão é que, diante de tamanho sucesso, muitos cristãos se perguntam como algo assim não foi registrado nas páginas da Bíblia. E a surpresa maior vem ao encontrar teólogos que garantem que esse mistério divulgado por Rhonda Byrne e companhia não é tão antigo nem secreto. Pelo contrário, sempre esteve nas Escrituras. Só que agora ganhou nome: Teologia Quântica. “A visualização encontra paralelo na Bíblia quando Jesus manda pedirmos em seu nome e crermos que já o temos recebido. A grande diferença é que os proponentes do pensamento positivo afirmam que todos podem ter tudo que quiserem – felicidade, riqueza, saúde. Mas esquecem de algo essencial: se isso é da vontade de Deus”, explica o pastor Ed Gungor, em seu livro Muito Além do Segredo.

Mas talvez a diferença não seja tão grande como pareça. O recurso à tradição cristã é algo comum na auto-ajuda. Um dos “clássicos” do gênero, O Poder do Pensamento Positivo, de 1952, foi escrito por um pastor metodista, Norman Vincent Peale. No livro, Peale faz uma relação direta entre fé e prosperidade, com direito a outras tantas máximas da Bíblia como “se Deus é por nós, quem será contra nós?”, extraída da Carta aos Romanos. Já O Segredo é mais parcimonioso na citação das Escrituras, mas confunde-se com a Teologia Quântica quando tenta dar um verniz científico a suas proposições. Ambos são inspirados em teorias contemporâneas, como os estudos da Física Quântica. Segundo os cientistas, partículas subatômicas como os elétrons podem se apresentar tanto como ondas de energia como objetos muito pequenos. Depende do observador. Já seus movimentos são imprevisíveis: ele pode aparecer em um momento num lugar e no outro estar no lado oposto. Da mesma forma é o homem, que recebe de Deus o livre-arbítrio e a capacidade de mudar os projetos divinos pela oração.

No afã de justificar suas posições, há até quem cite uma das mais famosas ilustrações da Teoria do Caos, segundo a qual uma borboleta que bate as asas no Japão pode causar, numa sucessão de eventos, um tornado no Brasil. Esse seria o efeito de uma oração feita com fé, ainda que pequena como um grão de mostarda. “Infelizmente, esse tipo de coisa é um grande erro cada vez mais enraizado nas igrejas. Os princípios são os mesmos do pensamento positivo, só muda o fornecedor que, em vez de ser o Universo, passa a ser Deus”, analisa Moisés Olímpio Ferreira, professor do Seminário Batista Nacional e do Instituto Betel de Ensino Superior (Ibes).

Para muitas igrejas que já se adaptaram a preceitos da Teologia da Prosperidade e à confissão positiva – segundo os quais o fiel deve determinar ou “profetizar” sua benção –, esse tipo de ensino cai como uma luva. “Não dá para tratar como se fosse restrito a uma corrente doutrinária. Esse pensamento religioso espelha o mundo em que vivemos e, de maneira sutil, afeta denominações tradicionais, pentecostais e neopentecostais. Deus se tornou o cumpridor de nossos desejos e o púlpito um manual de auto-ajuda para ser feliz sem sofrimento”, observa Ferreira, antes de complementar: “Hoje, a preocupação da Igreja não deve ser tanto com a santidade, mas com a sanidade daquilo que está pregando e ensinando”.

Novas e velhas heresias

Em mais de 20 séculos de história, a doutrina cristã sempre conviveu com as heresias, aqueles ensinos contrários a outros cujas origens remontariam ao próprio Jesus e seus apóstolos. Nos dois primeiros séculos, os gnósticos também tomavam a filosofia emprestada para ensinar que a matéria é má e negar a encarnação de Cristo, provocando muitas divisões entre os crentes. O sabelianismo surgido no século 3 é outra doutrina que causou confusão durante muito tempo ao afirmar que o Pai, o Filho e o Espírito Santo eram apenas aspectos distintos de uma única pessoa. No século 4, foi a vez do arianismo dizer que Jesus era apenas uma criatura um pouco superior feita por Deus. Mais um tempo depois e o pelagianismo começou a propagar a tese de que o homem nasce neutro, sem justiça ou pecado, e que são seus esforços que determinarão para onde irá. A graça de Deus facilita a difícil tarefa da salvação.

Nunca, no entanto, houve tamanha profusão de ensinos heterodoxos de uma só vez, como na atualidade. Detalhe: a maioria divulgada de forma sutil, diluída em sensações e experiências. Velhas idéias como as gnósticas ressuscitaram devido à descoberta de textos antigos como O Evangelho de Judas e a romances pseudo-históricos como O Código Da Vinci. Somaram-se a outras como a do Teísmo Aberto, que ganhou nova roupagem. Apesar de ser um fenômeno com mais de três décadas, no Brasil alguns desses ensinos se tornaram mais populares depois do tsunami que devastou a Indonésia no final de 2004.

Na ocasião, blogs de autores cristãos na Internet passaram a fomentar o debate: como um Deus amoroso permite a morte violenta de tanta gente? Para explicar a diferença entre esse atributo e o mundo real, a resposta encontrada foi que não é que Deus não queira salvar as pessoas, mas não pode. Apesar de ser todo-poderoso, ele criou o ser humano com liberdade. Para preservar isso, voluntariamente limita seu conhecimento do futuro, o que o impede de saber se alguns eventos vão acontecer.

Em parte, ensinos desse tipo são uma reação ao determinismo e ao controle enfatizados ao extremo pelas grandes denominações protestantes. Surgido no final da década passada, o movimento conhecido como Igreja Emergente é talvez um dos mais representativos desse novo momento do cristianismo. Insatisfeitos com sua vida espiritual e cansados do controle, estrutura e tradição das denominações tradicionais, grupos passaram a se reunir em casas, restaurantes e cafés nos Estados Unidos buscando nessas comunidades novas formas de espiritualidade. Uma de suas principais peculiaridades é buscar a união em torno de ações e características apreciadas por todos nas diversas correntes, como pode ser visto em obras como Uma Ortodoxia Generosa, do pastor Brian McLaren.

“O que houve foi uma reação à direita cristã conservadora nos Estados Unidos. Porém, uma reação que vai contra a própria fé e não contra os abusos e erros cometidos. Como o Brasil tem tradição em assimilar rapidamente o que vem de fora, uma cultura da imitação, diversas lideranças têm incorporado às suas convicções o ideário da esquerda cristã dos EUA e de Europa”, explica o pastor e professor Paulo Romeiro, do Departamento de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Mackenzie, em São Paulo. São essas idéias que trazem a nova onda de liberalismo teológico. “Nem tudo é devido ao neopentecostalismo. O triunfalismo neopentecostal não consegue viver sem um Deus onipresente. Apresenta falhas de interpretação, mas não duvida da Bíblia”, completa ele.

Na Igreja brasileira, porém, não são apenas as novas teologias que ganham espaço. Os modismos, quase sempre carregados de ensinos estranhos, aparecem em profusão. Engana-se quem pensa em batalha espiritual ou no movimento G12 com suas variações da cura interior e a suspeitíssima regressão psicológica, como as últimas novidades teológicas por aqui. “A indústria do entretenimento é muito forte na Igreja. Algo bem típico é a invasão dos festejos juninos nesses últimos anos. Diversas igrejas já fazem o seu arraial de Jesus. A sociedade não comemora datas bíblicas, mas a Igreja comemora as datas da sociedade, inclusive as religiosas”, observa Romeiro.

A área musical é outra que enfrenta dificuldades com modismos. Se um bem ensaiado grupo de coreografia durante os momentos de adoração pode elevar a espiritualidade do público, sua repetição durante todo o culto causa distração e afasta a pessoa da mensagem. A invasão dos corinhos, que na maior parte das igrejas pentecostais e neopentecostais substituíram os hinos por canções com longas e pasteurizadas repetições, também é muito criticada. Sem falar no messianismo de algumas lideranças evangélicas, quase adoradas pelos fiéis, e na sempre problemática questão financeira. “Se houvesse algum modo de tirar o dinheiro da história, acredito que muitas igrejas simplesmente deixariam de existir”, diz Paulo Romeiro, acrescentando que falar sobre sofrimento, renúncia e mundanismo passou a incomodar os protestantes. “Sabemos reunir muita gente em eventos, mas não conseguimos reunir mais as pessoas ao redor da cruz. Costumo dizer que o problema do Brasil não é se curvar a Baal, mas a Mamon, o deus que simboliza as riquezas”.

Crescimento qualitativo ou quantitativo?

Nunca houve um crescimento tão expressivo dos evangélicos no Brasil como o que se observa no presente. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há pouco mais de 20 anos, quase 90% da população do país se dizia católica. Os protestantes eram inexpressivos. Na virada do século, o número de crentes já havia crescido consideravelmente e representava 16% dos brasileiros. Atualmente, segundo pesquisa do Instituto Datafolha, os evangélicos já chegam a 22% ou 40 milhões de pessoas. Desses, a grande maioria são pentecostais, com uma prática religiosa focada nos problemas do dia-a-dia e um forte proselitismo.

O número de evangélicos é ainda mais expressivo se consideradas apenas as periferias das grandes cidades, locais onde há mais pobreza e segregação racial. Nesses bolsões, 29% dos habitantes se declaram evangélicos, contra 55% que afirmam ser católicos. Se confirmados outros dados, dessa vez da fundação norte-americana Pew Forum, de que 45% dos pentecostais brasileiros se converteram a partir do catolicismo, a previsão é de que em menos de vinte anos, a maior parte do povo brasileiro seja evangélico. Por conta desses números, muita gente não duvida em afirmar que o Brasil passa por um grande avivamento.

Será? “Estão distorcendo e banalizando o significado de avivamento. Na história, os avivamentos sempre trouxeram mudanças para a sociedade, como diminuição da violência e da corrupção. Não vemos isso no Brasil. Aqui, a influência evangélica na sociedade ainda é muito pequena. Temos um crescimento numérico, mas hoje vejo que o mundo tem influenciado mais algumas igrejas do que elas, o mundo”, aponta o pastor e jornalista assembleiano Silas Daniel, autor do livro A Sedução das Novas Teologias (Cpad), no qual critica os novos ensinos que estão entrando nas igrejas.

Mesmo que ainda não tenham chegado ao conhecimento do grande público, casos de igrejas e lideranças que adotam os modismos e novas teologias começam a preocupar os especialistas ouvidos por ECLÉSIA. “Há muitas aberrações doutrinárias e comportamentais que estão ocorrendo no meio evangélico. A qualidade da vida espiritual do brasileiro, em geral, não é boa. E onde está o problema? Basicamente na falta de ensino mais consistente da Palavra. Lideranças mal preparadas levam a rebanhos sem direção correta. Somos fortes para evangelizar, mas fracos para formar discípulos”, acredita Daniel.

Há pouco tempo, quando se falava em heresia, era quase automático se pensar em denominações que não seguiam a ortodoxia evangélica. Mórmons e Testemunhas de Jeová eram taxados como “seitas”. Doutrinas como a mariolatria – adoração a Maria -, a reencarnação e datas marcadas para a volta de Cristo eram automaticamente combatidas como grandes desvios. Os tempos mudaram. Com uma Igreja fraca em termos doutrinários e poderosa em marketing, está cada vez mais complicado dizer de onde vem o erro. “Existem desvios em toda parte, mesmo em denominações mais tradicionais há segmentos inteiros contaminados. Arrisco dizer que quase todas as igrejas estão infiltradas com doutrinas estranhas”, adverte Paulo Romeiro.

Relativismo, pluralismo e hedonismo são formas de pensar da sociedade atual. Mas se o mundo realmente entrou na Igreja ao combater as verdades absolutas, impor o ecumenismo às custas da fé e incentivar a satisfação das necessidades pessoais, como a busca de enriquecimento sem sofrimentos, o que acontecerá com o cristianismo brasileiro? É difícil dizer, mas dificilmente acabará como acreditam os ateus. Porém, aquele levantado para salgar a Terra e iluminar o mundo também não será mais um grande movimento de massa. E, tomara, não se torne como em muitos países do mundo, que se dizem evangélicos, mas que precisam mesmo ser novamente evangelizados.

Quadro: Teologia Narrativa

Como ler e ainda interpretar a Bíblia são questões que dividem a humanidade há séculos. Além de ser uma obra literária com belas lições morais e um conjunto de histórias edificantes, ela também é normativa, ou seja, traz doutrinas imutáveis porque é a Palavra de Deus revelada? A questão pode parecer óbvia para muita gente, mas ultimamente vem sendo o motivo de acirrados debates. Em grande parte, por causa da polêmica Teologia Narrativa, que propõe que o livro sagrado não deve ser entendido como uma grande doutrina com sentido único, mas como uma narrativa devocional, que pode ser lida e interpretada sem maiores preocupações com regras hermenêuticas estabelecidas pelos mais conservadores.

Inspirada na filosofia desconstrutivista surgida na França dos anos 1960, a Teologia Narrativa defende que a Escritura não é um código de consulta de verdades morais e eternas, mas a narrativa dinâmica de Deus. Seus principais defensores, o batista Hans Frei e o católico William Baush, evitam em suas obras conceitos que normalmente são usados para se referir à Bíblia, como autoridade, inerrância, infalibilidade, revelação, objetiva, literal e absoluta. Todas essas qualificações seriam extra-bíblicas, segundo eles. Isso porque não há uma forma única de interpretar cada texto. O sentido é dado a cada leitor pelo Espírito Santo.

Quadro: Teísmo Aberto

O Teísmo Aberto ganhou força no Brasil depois do tsunami que destruiu a Indonésia no final de 2004. Com a mesma força com que a onda ceifou milhares de vidas, a indagação sobre como um Deus bom pode deixar que aconteçam coisas tão ruins assim deixou as salas de aula das faculdades teológicas e se disseminou em grupos de discussão e blogs na Internet. Apesar de seus postulantes dizerem que crêem na onipotência, na onipresença e na onisciência divinas, defendem que devido ao livre-arbítrio que concedeu ao homem, Deus limitaria esses atributos em nome do amor e da liberdade dados à sua criação.

Com isso, também não conheceria todo o futuro, pois este dependeria das escolhas dos homens. Justifica essa crença com relatos bíblicos que afirmam que Deus se arrepende. Na realidade, nada disso é novidade. Desde que Pelágio ensinou que o homem pode ser santo por suas próprias forças nos primórdios da fé cristã, há defensores dessas crenças. A diferença é que agora o discurso está envernizado com tons piedosos. Afinal, não é que Deus não queria intervir para salvar os homens do tsunami. Ele não podia.

Quadro: Teologia Quântica

Se no dia-a-dia ciência e religião são como água e óleo, que não se misturam, não dá para negar a influência da Física Quântica nas reflexões teológicas nos últimos anos. Ao defender que a vida é mais do que o mundo material visível e que existem realidades que não estão presas às leis da Física Clássica, a Física Quântica atrai cada vez mais o interesse de grupos religiosos como budistas, espíritas e, agora, protestantes. Ao estudar as propriedades do átomo, os cientistas descobriram que partículas subatômicas como os elétrons podem se apresentar tanto como ondas de energia como objetos muito pequenos. Depende do observador. Já seus movimentos são imprevisíveis: ele pode aparecer em um momento num lugar e no outro estar no lado oposto.

Influenciados por essas descobertas, os defensores da Teologia Quântica enfatiza bastante o livre-arbítrio humano. Por meio da fé e da oração, o homem pode influenciar Deus e fazê-lo mudar sua vontade. Como o pensamento positivo, a confissão positiva atrai bênçãos e vitórias, inclusive financeiras.

Quadro: Evangelho da Auto-ajuda

Para os evangelistas da auto-ajuda, a Bíblia é um aglomerado de histórias inspirativas e textos de auto-ajuda. Termos como pecado e arrependimento são normalmente evitados por seus pregadores que preferem enfatizar a prosperidade material e o decretar da benção.

Um de seus principais representantes é Joel Osteen, pastor da Lakewood Church, na cidade de Houston, no Texas, Estados Unidos. Seu estilo sóbrio e pregação motivacional, principalmente na televisão, cativaram os norte-americanos e á começam a fazer seus primeiros adeptos em outros países. O sucesso é tanto que, em 2006, Osteen foi eleito o cristão mais influente das Américas.

Quadro: Escritores em xeque

O que há em comum entre , Brennan Manning e Brian McLaren? Além de todos serem autores de alguns dos mais festejados best-sellers cristãos da atualidade, todos são acusados de terem se enveredado pelo liberalismo teológico e mesmo de defenderem questões, digamos, pouco ortodoxas. De todos, o mais criticado tem sido McLaren, nome ainda pouco conhecido do grande públio no Brasil. O que não impede o autor de Ortodoxia Generosa, de influenciar várias lideranças e ser apontado com o principal nome de uma nova geração de teólogos. Justamente por defender uma união de esforços das diversas linhas teológicas cristãs para que a religião possa ser “sal” e “luz” no mundo, apontando virtudes que considera importantes em cada uma, McLaren começa a ser combatido como alguém que tenta relativizar os relatos das Escrituras.

Apesar de serem grandes admiradores de McLaren e defenderem alguns pressupostos liberais, o problema com Yancey e Manning é outro. Yancey, autor de Maravilhosa Graça, O Jesus que Eu nunca Conheci e famoso por suas críticas ao cristianismo institucionalizado, tem sido criticado por apoiar os movimentos homossexuais. Manning enfrenta o mesmo problema. Elogiado por obras de impacto social como O Evangelho Maltrapilho e O Impostor que Vive em Mim, em que defende um estilo de vida simples como algo central para a fé cristã, chocou recentemente os norte-americanos mais conservadores ao afirmar que, na sua opinião, é possível conciliar a fé cristã e o homossexualismo. A resposta veio rápido: o escritor tem sido duramente criticado por falar em suas palestras da graça de Deus sem enfatizar a questão da mudança de vida.

Marcos Stefano

Jornalista da revista Eclésia

fonte: Que avivamento é esse?

20/08/2010

O que é um anglicano evangélico?

 

G.K. Chesterton uma vez enviou uma correspondência por escrito ao “The Times” falando sobre o que estaria errado com o mundo: “O que há de errado no mundo? Eu. Atenciosamente, G. K. Chesterton.” Por analogia, quando me perguntam, o que é um evangélico anglicano? Estou tentado a responder: “Bem, eu sou.”

Então, correndo o risco de parecer auto-indulgente, deixe-me dizer o que isso significa para mim. Isso significa que eu me considero em primeiro lugar cristão, em segundo cristão evangélico, e em terceiro anglicano evangélico cristão. Eles são como três círculos concêntricos, cristão é o maior e o menor é anglicano evangélico.

Para começar com o primeiro, quando eu digo que sou cristão, eu quero dizer que creio que Jesus Cristo é o Senhor do Universo, Salvador do mundo, e Cabeça da Igreja e que tenho dado a minha vida, alma e coração, mente e força para Ele. O desejo do meu coração é vê-lo mais claramente, amá-lo mais intensamente e segui-lo mais de perto, dia a dia. (Acho que é isso que vocês chamam de “ser extremamente claro,” algo que os anglicanos não fazem muito. Assim seja. Tenho sido provavelmente influenciado pela leitura das Confissões de Agostinho, muito recentemente).

Ser o primeiro e acima de tudo um cristão significa também que eu me sinto solidário com um pentecostal na Argentina, um Quaker no Quênia, um membro da Irmandade, na Espanha, um católico da Índia, e um membro de uma igreja doméstica subterrânea na China. Outras diferenças nacionais, bem como denominacionais, são pálidas insignificâncias à luz da nossa fidelidade a Jesus Cristo. Se eu fosse um anglicano, simplesmente, essa identidade com outros grupos seria muito mais difícil de aceitar.

Quando eu digo, por outro, que eu sou um evangélico, quero dizer que eu pertenço a essa parte da comunidade cristã, que enfatiza a importância da Bíblia como fonte primária de autoridade da Igreja e do Evangelho como a fonte da vitalidade da Igreja . Há outras características no evangelicalismo, mas eu diria que todas as outras são secundárias a esta. Como John Stott (figura importante do evangelicalismo anglicano), diz: “Os evangélicos são pessoas da Bíblia, e eles são pessoas do Evangelho.” Para mim, estas duas concepções são tão centrais para o cristianismo autêntico como a Santíssima Trindade ou o mandamento de amar o meu próximo.

Suponho que, se toda a Igreja decidisse amanhã que a Bíblia e o Evangelho fossem tão importantes quanto os evangélicos acreditam, então o termo evangélico, não seria mais necessário. Até então, eu estou contente em ser chamado de evangélico, não como um “membro” de um “partido” (Deus me perdoe), mas por causa destas convicções acerca da Bíblia e do Evangelho.

E, em terceiro lugar, quando eu digo que eu sou um anglicano, bem, eu acho que não preciso explicar o que é ser anglicano. Quanto ao porquê eu sou um anglicano, gostaria de dizer que eu aprecio uma série de coisas. Uma tradição que tem um forte senso de história (para muitos outros evangélicos, não aconteceu muita coisa entre o final de Atos e Lutero pregando suas 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, em 1517). A sensação de liberdade intelectual e espiritual dentro dos amplos limites cristãos (pensar e deixar pensar; “no essencial unidade, no não-essencial, liberdade; em tudo, amor”). A liturgia, que me liga com outras igrejas ao redor do mundo e através dos séculos (e não é dependente do capricho de um ministro, do indivíduo, do humor, do vocabulário, ou da espiritualidade). E o episcopado, pelo menos quando os bispos são fiéis e nos ensinam de forma piedosa.

E nos dias em que eu me pergunto por que eu fico nesta Igreja (e tem havido alguns desses recentemente), parte da minha resposta é: “Para quem havemos nós de ir?” Não que a Igreja Anglicana tenha “palavras de vida”, mas há outras coisas que eu aprecio, e, quando combinado com as palavras de vida, para mim é irresistível. (John Bowen)

Autor: John Bowen

fonte: O que é um anglicano evangélico?

19/08/2010

Conversão

 

A Palavra de Ordem é Conversão

At 9:1-20; Ap 5:11-14; Jo 21:1-19

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Converter-se, o que é?

NÃO É:

* Mudar de igreja
* Mudar de hábitos (deixar de fumar, de beber..)
* Adquirir novos hábitos
* Mudar a forma de se vestir

Conversão é uma mudança interior que promove a nossa união com Cristo e nos permite viver uma vida nova, plena e eterna. Na verdade, a palavra conversão significa mudança de rumo: e é isso que o Senhor quer que expressemos em nossa vida como cristãos e cristãs, uma vida que seja bênção onde quer que nós estejamos.

No textos de hoje contemplamos duas histórias de conversão que devem animar a nossa fé, conversões de duas das colunas da Igreja Cristã: São Paulo(na narrativa de Atos) e São Pedro (na narrativa do Evangelho)

Em Atos 9, conta-se a história de um tal Saulo que perseguia a Igreja e que quisera ir a Damasco, na Síria, a fim de perseguir e aprisionar cristãos. Um homem altamente religioso, sincero no que acreditava, mas que precisava de conversão, ou seja, ele sabia o que era religião, mas não conhecia a Jesus, aquele que, de fato, nos religa a Deus (lembrando que religião vem de religare). Saulo precisou de um evento “dramático”, uma visão, para reconhecer que estava errado. O perseguidor agora cria e precisava ser batizado.

No Evangelho temos a narrativa de Pedro, que já conhecia o Senhor, com Ele andara, convivera, mas também o negara três vezes. Interpelado pelo Senhor, por três vezes teve que afirmar que amava o seu Senhor.

Isso vem nos provar algumas coisas importantes para nós pensarmos a respeito da conversão:

* Todos precisam de conversão
* A experiência pode variar, não há um padrão a ser seguido
* O Senhor nos questiona, nos confronta com as nossas limitações, angústias medos, valores e mostra que Ele mesmo é maior e melhor que tudo isso
* Não é um processo estático: Paulo precisou ser discipulado por Ananias; Pedro foi novamente convidado pelo Senhor: Segue-me
* É preciso arrependimento e fé para se tornar discípulo de Jesus e enfrentar o futuro, sem se importar quais sejam as circunstâncias ou o que o futuro nos reserva.

O que podemos ver, portanto, é que é necessária conversão: E. Stanley Jones, grande missionário e escritor do século XX, afirmou que 2/3 dos membros das igrejas cristãs necessitam de conversão.

E do que precisamos nos converter ao Senhor?

* De nossos pecados
* De nossos caminhos que parecem retos, mas ao cabo dão em caminhos de morte
* De nossa religiosidade barata, que prejudica a nossa comunhão com Jesus Cristo e a verdadeira prática do Cristianismo
* De conceitos e valores mundanos que negam a Deus e à sua palavra.

Conclusão:

É preciso que saiamos da presença do Senhor diferentes, renovados. Por que não hoje?

fonte:  Teologando - Falando de teologia e historia