John Piper
A ternura de Deus para com os humildes está arraigada em sua auto-suficiência transcendente. Isto significa que aqueles que amam enaltecer a grandeza de Deus (o que todos deveriam fazer, de acordo com Salmos 40.16) precisam deleitar-se na ternura para com os humildes. Deus exalta a sua auto-suficiência transcendente por amar o órfão, a viúva e o estrangeiro.
Deus é Deus sobre todos os outros deuses. Ele é o Senhor sobre todos os senhores. Ele é "grande". É "poderoso". É "temível". Com base nesta grandeza, Moisés disse que Deus "não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno". Tudo isso enfatiza a auto-suficiência transcendente de Deus. Ele não aceita suborno, porque não tem motivo para aceitá-lo. Deus já possui todo o dinheiro do universo, e controla o subornador. Ele está acima dos subornos como o sol está acima das velas ou como a beleza está acima dos espelhos.
Moisés também disse que Deus não faz acepção de pessoas. Ou seja, Ele não tenta conquistar o favor de alguém por meio de tratamento especial. Fazer acepção de pessoas é outro tipo de suborno, não com dinheiro, mas com tratamento privilegiado. Deus está acima disso, porque não precisa do favor dos outros. Se Ele quer que algo seja feito, não fica preso a estratégias coercivas. Ele simplesmente o realiza. Fazer acepção de pessoas é o que você faz, quando não pode enfrentar as conseqüências da justiça. Mas Deus não é somente capaz de enfrentar essas conseqüências, Ele é a fonte de toda capacidade de enfrentá-las. Deus não depende de ninguém, além dEle mesmo. Ele é transcendentemente auto-suficiente.
Agora, temos a parte mais preciosa. Com base nessa auto-suficiência transcendente, Moisés disse que Deus "faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes". Visto que Deus não pode ser subornado pelo rico e não tem deficiências a serem remediadas por meio do favoritismo, Ele trabalha em favor daqueles que não se podem dar ao luxo de pagar subornos e que nada têm para atrair a parcialidade dEle — o órfão, a viúva e o estrangeiro. Esta é a razão por que eu disse que a ternura de Deus para com o humilde está arraigada em sua auto-suficiência transcendente.
Em seguida, temos a aplicação no versículo 19: "Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito". Isto não deve ser feito por sermos transcendentemente auto-suficientes. Deve ser feito por sermos os beneficiários da abundante plenitude transcendente de Deus. Visto que o nosso Deus transcendente age por nós e nos satisfaz consigo mesmo, podemos nos unir a Ele em condescendência. Esta é a razão para crermos que continuaremos a ser beneficiários, se não tentarmos suborná-Lo com nossas obras ou exibir-nos para conquistar a predileção dEle. Se nos reconhecermos como pessoas em condição de desamparo, semelhante à de uma viúva, de um órfão ou de um estrangeiro, e dependermos da espontânea graça futura de um Salvador auto-suficiente, seremos amados para sempre. E, sendo amados dessa maneira, teremos poder e prazer em amar como somos amados.
Isto é o que está subentendido em Tiago 1.27: "A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações". Esta é a verdadeira religião, porque flui da auto-suficiência transcendente de Deus, é sustentada pela sua graça e ecoa para a sua glória. Isto não corresponde a fazer o bem socialmente. É uma evidência da abundante provisão de Deus. Que Deus nos torne um povo cheio de ternura, para a glória de sua transcendente auto-suficiência!
Extraído do livro:
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Uma Vida Voltada para Deus
John Piper
28/01/2010
FONTES TRANSCENDENTES DE TERNURA
O profeta da graça
A graça de Deus é um conceito revelado de forma detalhada no Novo Testamento. Entretanto, esse dom eterno de Deus aparece em diversas oportunidades nos livros do Antigo Testamento. Jonas é um dos profetas precursores da graça de Deus. Seu livro foi escrito provavelmente por volta de 760 a.c. Sua missão era anunciar a destruição iminente da cidade de Nínive, a capital da Assíria. Jonas era profeta de Israel e como nacionalista não nutria simpatia pelos cidadãos de Nínive, pela consciência das destruições que a Assíria havia promovido em Israel (II Reis.15:29). Ele foi um profeta mandado por Deus a pregar aos gentios, razão pela qual se pode compreender sua recusa, entendendo que aquela cidade não merecia o perdão de Deus.
As controvérsias a respeito da história de Jonas e o respaldo sobre os fatos narrados no livro que leva seu nome devem ser sanados com base nas palavras de Jesus: "porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do homem estará três dias e três noites no coração da terra" (Mateus 12:40).
O livro de Jonas demonstrou a graça eterna de Deus para com os homens. A palavra graça quer dizer “favor imerecido”. Na história de Jonas, Deus demonstrou sua graça despontando para salvação de uma cidade inteira: Nínive (Jonas 1:2). Jonas entendeu que aquela cidade não merecia o perdão de Deus e consciente da intenção de livramento da parte do Senhor preferiu fugir a cumprir a ordem divina (1:3; 4:1-2).
Mesmo na sua fuga, Jonas o porta voz da graça de Deus, sem querer colaborou com a salvação de homens pagãos que não conheciam ao Senhor (1:16). Deus se manifestou a Jonas, segundo a sua fé (1:9). A linguagem de Deus é adequada à nossa crença. Jonas citou o mar e a terra seca, mas esqueceu o homem. O Deus criador de toda a natureza escolheu o homem como a coroa da criação (compare com 1:4, 12, 15 e 17; 2:3, 5 e 10; 4:6,7 e 8). Repare que Deus usou a natureza para demonstrar o quão importante é a alma humana.
Deus insistiu com Jonas em favor de Nínive (3:1-2). A intervenção divina em favor de Nínive é uma figura da intervenção de Deus na história em favor do homem. Assim como Jonas permaneceu três dias no ventre do peixe por uma ação deliberada de Deus para a salvação de Nínive, Jesus ficou três dias no “coração” da terra (Mateus 12:40), de lá ressuscitando para salvação de todo o mundo.
Jonas é o retrato da incapacidade humana de propagar a graça de Deus, sem a correta compreensão do que ela representa: ele se recusou a anunciar a palavra de Deus por acreditar no privilégio da salvação apenas para um grupo “especial” de pessoas, os hebreus (1:9). No livro pode-se ver o poder da palavra de Deus para salvação de todos os homens (3:5-10). O poder da mensagem de Deus que Jonas levou não fora reconhecido até então pelo próprio Jonas.
Jonas fez a declaração pontual da presença da graça de Deus no contexto da sua trajetória como profeta (...pois eu sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal. 4:2b). O egoísmo do profeta ao ver o arrependimento do povo de Nínive (4:1), a ponto de pedir sua própria morte (4:3), indica quanta incompreensão pairava em seu coração a respeito da graça de Deus (esse mistério era incompreendido pelo profeta Efésios 3:1-6).
No livro, a graça de Deus se manifestou em várias ocasiões: (1) Para os navegadores; (2) para Jonas no ventre do peixe; (3) para Nínive; (4) para o próprio Jonas quando quis morrer. Deus desejava que Jonas compreendesse que a sua intenção era abrir os olhos de toda uma cidade que estava cega pelo pecado (4:11). Se uma alma humana vale mais que todo o mundo perdido e Deus usou as forças da natureza para demonstrar essa verdade, qual é o valor de uma cidade? A história de Jonas foi um sinal precioso de Deus para que os Hebreus compreendessem a mensagem de Jesus no futuro.
Lições do livro de Jonas
1. Assim como fez com Jonas, é possível que Deus coloque a nosso encargo a salvação de pessoas que julgamos não serem dignas da graça de Deus.
2. Quando privamos as pessoas da graça de Deus podemos estar condenando nossa própria vida a também perder a graça. Jonas quase a perdeu!
3. O homem só pode propagar a graça de Deus, se a graça tiver se manifestado em sua própria vida. A graça é uma dádiva divina por meio da fé.
4. A graça de Deus é um composto fundamental do nosso trabalho:
a) Viver a graça;
b) Anunciar a graça.
5. Se vivermos a graça, somos capazes de compreender quão poderosa ela é e como pode alcançar as pessoas.
6. Podemos assim anunciá-la não como uma teoria espiritual distante, mas como uma experiência especial de Deus na nossa vida (há uma grande diferença quando a nossa pregação reflete a nossa própria experiência com Deus).
7. Quanto mais a graça abundou na nossa vida, mais gratidão nós temos diante de Deus e mais desejo de que ela alcance outras pessoas (Lucas 7:40-47).
Apesar de ter ouvido a mensagem de Deus mediante a pregação de Jonas, Nínive se afastou de Deus e foi destruída em 612 a.c. Nesse ano, a cidade foi tomada por uma coalizão de medos e caldeus em uma dinastia independente chamada "Neobabilônia". Seu fundador, o general caldeu Nabopolassar conquistou e destruiu Nínive definitivamente.FONTE: O profeta da graça - eJesus - Cristianismo On Line - O site que Proclama os Ensino de Jesus
CURSO DE FORMAÇÃO MISSIONÁRIA GRATUITO
(Pastor Eliezer e Missionária Luciana em Cochabamba, Bolívia, fazendo a obra de Deus)
Amados irmãos, o CETEM (Centro de Educação Teológica e Missionária), que está localizado em Natal, RN, está oferecendo o curso de FORMAÇÃO MISSIONÁRIA, gratuitamente, tanto de forma online como presencial.
“Porque é impossível ficarmos indiferentes à necessidade espiritual de grupos humanos, nas pequenas cidades, nos sertões, nas aldeias, neste país e em outros. Milhares de vidas não tiveram a oportunidade de ouvir falar de Cristo. Não é que nunca quiseram ouvir. É que falta gente para obedecer ao IDE de Jesus. Alguém que renuncie a interesses próprios e chegue até eles, levando-lhes a perfeita e doce mensagem do evangelho. "Todo coração sem Cristo é um campo missionário." Se você decide-se a alistar-se nas fileiras do Supremo General, deseja apresentar-se a Ele, "(...) aprovado como obreiro que não tem do que se envergonhar, e maneja bem a palavra da verdade."
Muitos são vocacionados, mas esbarram na situação financeira que os impede de frequentar um curso de formação na área de missões. Eu entendo e gostaria que todas as instituições de formação missionária oferecessem seus cursos gratuitamente para alavancarmos um movimento missionário brasileiro de muito maior amplitude, para alcançarmos Jerusalém, Judéia, Samaria e os Confins da terra.
Nosso material é bem elaborado e dentro dos padrões estabelecidos por Deus.
Nossa visão é: treinar homens e mulheres que queiram compromisso com Jesus Cristo e com Seu Reino, afim de que Seu nome seja proclamado às nações.
Nosso Alvo: Disponibilizar nossos recursos didáticos ao maior número de pessoas.
Nossa Metodologia: O Curso de Formação Missionária funciona de 02 (duas) formas: *Presencial e *Em ambiente Virtual, através de uma plataforma educacional e-learning, onde o aluno quando matriculado terá acesso restrito ao conteúdo programático, testes e avaliações. Podendo contar com a ajuda do Tutor da sala para tirar dúvidas e esclarecimentos, além de participar de fóruns com outros alunos. Dispomos também de uma biblioteca virtual para pesquisas. Na verdade o aluno não estará sozinho, uma equipe de homens e mulheres com experiência teológica e missionária estarão dando o suporte necessário.
Quais os requisitos para se inscrever?
1- Ter chamado
2- Ser membro de uma Igreja Evangélica
3- Estar disposto a completar o curso até o final.
OBs.: caso o aluno não complete o curso ou não responda os questionários, sua inscrição é imediatamente cancelada. O mesmo não terá como voltar e solicitar nova inscrição, o próprio sistema rejeita. Por isso é bom que o aluno tenha certeza do que ele quer.
DURAÇÃO: O aluno tem um prazo de 06 meses para concluir com efeito todos as disciplinas, podendo concluir antes, dependendo da disponibilidade de cada um. Por exemplo, são oferecidas 14 disciplinas no curso de FORMAÇÃO MISSIONÁRIA. O aluno só poderá fazer uma disciplina por vez. Quando ele concluir uma disciplina a outra será automaticamente liberada.
SÃO AS DISCIPLINAS:
1- EVANGELISMO E DISCIPULADO
2- MÉTODO DE ESTUDO BÍBLICO
3- INTRODUÇÃO BÍBLICA
4- HISTÓRIA DE MISSÕES
5- MISSÕES URBANAS E TRANSCULTURAL
6- HOMILÉTICA
7- VIDA DO APÓSTOLO PAULO
8- HERMENÊUTICA
9-LIDERANÇA CRISTÃ
10- ANTROPOLOGIA MISSIONÁRIA
11- MISSIOLOGIA EM ROMANOS E EM EFÉSIOS
12- CARÁTER E VIDA CRISTÃ
13- GUERRA ESPIRITUAL
14- PLANTAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DE IGREJAS”
Pr. Jean Aguiar
Fundador e diretor do CETEM
Visite o site do CETEM: http://www.cetemnatal.com.br/tmp/
fonte: Veredas Missionárias
27/01/2010
ARREPENDER-SE É MUDAR O MUNDO

O arco da narrativa de Lucas, que se alça no evangelho que traz o seu nome e se fecha graciosamente no livro de Atos, é sustentado por um bom número de conceitos-chave, motivos centrais que [re]aparecem em momentos estratégicos e amarram dessa forma a sua estrutura. São temas como batismo, arrependimento, salvação, plano divino e a relação entre a rejeição e a expansão da mensagem da boa nova.
Dentre esses, o menos importante não será a noção de metanoia/arrependimento. A raiz grega para “arrependimento” aparece 25 vezes no trajeto de Lucas-Atos, número que representa mais de 45% de todas as ocorrências da palavra no Novo Testamento. Mais importante do que observar essas cifras, no entanto, será notar que os demais autores do Novo Testamento, quando usam a palavra, não se dão ao trabalho de defini-la ou de fornecer para ela quaisquer verdadeiros pontos de referência. Lucas é o único autor neotestamentário a apresentar chaves numerosas e inequívocas para que seu leitor entenda a natureza do arrependimento, “Frutos dignos de arrependimento”, isto é, atitudes que evidenciem a nossa mudança de mentalidade.conforme anunciado por Jesus e por seu precursor, bem como as implicações da idéia para a comunidade cristã e para a sociedade como um todo.
Para o autor de Lucas e Atos o arrependimento é uma forma muito peculiar e prenhe de consequências de mudança de mentalidade. Sua idéia de arrependimento tem, na realidade, pouca relação com a arapuca cheia de implicações teológicas com que tentamos aprisionar a palavra.
Muito embora no evangelho de Lucas João Batista dê início ao seu serviço público apregoando o “batismo de arrependimento tendo em vista a remissão de pecados” (Lucas 3:3), nesta narrativa arrepender-se não é o mesmo que “abraçar o perdão”, nem é o mesmo que “abandonar uma vida de pecado” (pelo menos não no sentido seletivo que costumamos atribuir a perdão e pecado).
Muito embora João Batista deixe muito claro (Lucas 3:8) que o apego à tradição religiosa não tem poder para poupar quem quer que seja da ira vindoura (”nem comecem a dizer em si mesmos: ‘Nosso pai é Abraão’”), para Lucas arrepender-se também não é mero recurso para se evitar a punição divina.
Tanto “abandonar o pecado” quanto “evitar a punição”, idéias através das quais estamos habituados a interpretar o termo arrependimento, tem uma natureza negativa: enfatizam o que não deve ser feito e aquilo que pode ser evitado. Na narrativa de Lucas-Atos, o arrependimento é sempre coisa a ser lida numa lente positiva: diz respeito, invariavelmente, ao que deve ser, a partir daquele momento e para sempre, colocado em prática.
Para Lucas, a mensagem do arrependimento não anuncia coisa alguma a respeito do que Deus está fazendo; ela anuncia tudo a respeito do que você deve fazer. Para Lucas, as implicações do arrependimento não são teológicas, mas práticas. Para Lucas, arrepender-se é um modo de abraçar a salvação pelo método de salvar os outros.
Isso fica evidente desde o primeiro momento em que a idéia é apresentada pelo autor, no terceiro capítulo do seu evangelho. Às multidões que saíam para ser batizadas por ele, João Batista dava a entender, sem qualquer rodeio, que o seu batismo não representava garantia alguma ou mérito algum (vv. 7-8). “O que vocês devem fazer”, ele esclarece em seguida, “é produzir frutos dignos de arrependimento”. Em outras palavras, o que Deus está exigindo de nós não são ritos ou profissões de fé, mas atitudes que evidenciem a nossa mudança de mentalidade. Porque as árvores que não dão frutos – isto é, os adoradores que não produzem evidência da sua mudança de critérios – estão sendo cortadas e lançadas no fogo (v. 9).
Diante dessa exigência, os ouvintes de João Batista apresentam-lhe a pergunta que será ecoada sem alteração pelos ouvintes de Pedro no Pentecostes: o que devemos fazer?
A resposta oferecida pelo Batista é de importância épica, porque revelará quais são, na opinião divina que ele está representando, as implicações da metanoia. Quais são as atitudes que evidenciam o arrependimento/mudança de mentalidade? Que resposta você daria a quem lhe perguntasse quais são as exigências do arrependimento bíblico?
Para surpresa e embaraço eternos de igrejeiros antigos e contemporâneos, o arauto de Deus não entende o arrependimento como chamado à religião ou à abstinência, mas como convocação à justiça social, à integridade e à distribuição de renda:
“Quem tem duas túnicas”, exige João Batista, “reparta com o que não tem nenhuma. Quem tem comida deve fazer o mesmo”.
Para nossa felicidade, alguns cobradores de impostos aparecem logo em seguida para serem batizados por João – isto é, estão dispostos também eles a abraçar o arrependimento, – e fazem-lhe precisamente a mesma pergunta: e nós, o que devemos fazer?
A resposta de João: “Não cobrem mais do que lhes foi prescrito.”
E, logo depois, alguns soldados: e nós, o que devemos fazer?
João: “Não tentem extorquir o que pertence aos outros fazendo denúncias falsas. Contentem-se com o seu soldo”.
Neste ponto será necessário mais uma vez parar no acostamento e enfatizar o caráter absolutamente revolucionário dessas divinas interferências. Pois o reino de Deus anunciado por João Batista e por Jesus não implica apenas na abolição da idéia de religião como esforço de reconciliação com Deus por parte do homem. Nesta nova intervenção Deus não quer nos salvar das nossas faltas ou do castigo que elas requerem, o que seria fácil demais; seu ambicioso e exigentíssimo plano é salvar-nos da nossa mediocridade. Seu plano é salvar-nos de nós mesmos.
Para os arautos das boas novas nos quatro evangelhos, o homem deve arrepender-se não porque o arrependimento é a resposta adequada ao pecado, mas porque teve início um novo e assombroso período da história. A motivação para se adotar a nova mentalidade é a vertiginosa notícia de que o reinado de Deus foi inaugurado. Arrependei-vos, minha gente, porque é chegado o reino de Deus.
E embora não conheçamos o retrato completo deste novo mundo que Deus está sonhando, anunciando e implantando, os evangelhos vão indicando que ele será caracterizado por inúmeras revoluções por minuto em todas as áreas da atividade humana. Este novo mundo requer uma nova mentalidade, uma nova visão de mundo, e adotar esta nova cabeça é precisamente arrepender-se.
É por isso que em suas respostas João Batista vai esclarecendo que o arrependimento deve necessariamente abranger todo um leque de dimensões éticas, sociais e antropológicas.
Como o cerne do projeto do reino é uma reconciliação radical entre os seres humanos, com a consequente criação de uma nova comunidade, a primeira e mais geral revelação é a de que todos, não apenas os ricos, tem a responsabilidade de repartir. Onde todos tem a mesma ausência de merecimento, todos merecem rigorosamente a mesma coisa – pelo que toda e qualquer desigualdade deve ser voluntariamente corrigida pelos componentes do sistema (”quem tem duas túnicas reparta com o que não tem nenhuma. e quem tem comida deve fazer o mesmo”). Em segundo lugar, como explicam as respostas dadas aos soldados e aos cobradores de impostos, a nova era exigirá, mesmo daqueles colocados nas mais comprometedoras posições da sociedade, uma postura radical de integridade pessoal.
A metanoia representa uma revisão completa do modo como os seres humanos interagem uns com os outros, e isso porque o novo estado de coisas do reino exigirá tudo de todos e algo diferente de cada um. Embora acabe representando desafios diferentes de acordo com a presente posição do indivíduo na sociedade, as marcas do arrependimento dizem sempre respeito à relações interpessoais, e requererão invariavelmente uma postura de altruísmo, inclusão e misericórdia. Como deixam abundantemente claro os três exemplos deste episódio de Lucas, arrepender-se é rever a nossa posição sobre quem é digno de Deus, e portanto sobre quem é merecedor da nossa amizade, da nossa lealdade e da nossa túnica extra.
Esta, e não servir de ilustração da vida futura, é a razão de ser da parábola do rico e o Lazáro (Lucas 16:19-31). Na parábola o homem rico mostrou-se merecedor dos tormentos do inferno porque, diante da oportunidade que jazia literalmente à sua porta, recusou-se a arrepender-se. O rico é punido porque negou-se a abraçar a lógica inclusiva do reino e repartir com o Lázaro uma parcela dos seus recursos. De seu posto de sofrimento e exclusão, o rico pede a Abraão que permita que o mendigo se apresente na terra dos vivos aos seus cinco irmãos, porque “se alguém dentre os mortos for ter com eles, eles hão de se arrepender” – isto é, mudarão o seu modo de interagir com os outros/pobres.
Paralelamente, há outro símbolo potente nas respostas dadas por João Batista aos soldados e aos cobradores de impostos. Os dois grupos representavam categorias que viviam – e muitas vezes por boas razões – às margens da aceitação social. Soldados e cobradores de impostos não mereciam tratamento cordial e não tinham cacife para participar da comunidade de Deus. Ao se dispor a responder as suas perguntas, João acaba revelando o impensável: que o arrependimento (e portanto o acesso ao reino e à salvação) está aberto mesmo aos desprezíveis e desprezados, aqueles que a sociedade decidiu serem inteiramente indignos de inclusão social fora do seu próprio círculo. Arrepender-se, na ótica mais ampla do reino, é tanto mudar de idéia a respeito de quem é aceitável quanto passar a viver fornecendo a todos indicação de que todos são aceitáveis.
É preciso lembrar que o mundo da Antiguidade era, talvez ainda mais do que o nosso, regido pela crença indiscriminada em categorias sociais estanques, barreiras que milagre algum podia alterar ou derrubar. A inclusividade brutal do reino de Deus, como proposto por Jesus e João Batista, representava e representa uma tremenda ameaça a esse estado de coisas.
E, como declarado nos evangelhos, a revolução igualitária do reino começa pessoa a pessoa pela guerrilha do arrependimento, que no vocabulário da boa nova não é remorso e não é contrição, mas uma mudança definitiva e radical no modo de se ver e experimentar o mundo e a relação com o Outro.
Arrepender-se é mudar o mundo. Numa palavra, Jesus prega a aceitação de todos, e essa inclusividade requer uma extrema revisão no nosso modo de pensar pessoas e comunidades. Essa mudança de mentalidade altera cada aspecto da vida, e produz uma completa reorientação de crenças, critérios e atitudes.
Na prática, como explicam os exemplos do evangelho de Lucas, o arrependimento trabalhará sempre para corrigir desigualdades e injustiças sociais, morais, éticas, financeiras e religiosas. Contribuirá para alterar visões de mundo que causavam a exclusão. Servirá de instrumento de ressocialização, possibilitando a criação de um comunidade inclusiva sem qualquer paralelo na história anterior ou posterior da humanidade.
Essa reforma de ponto de vista altera o próprio tecido da realidade, porque muda o que as pessoas se mostrarão dispostas a fazer umas pelas outras. Criará ao mesmo tempo um ambiente novo, onde gente de diversas origens e orientações, que vivia antes alienada, poderá conviver como povo de Deus.
Esta insana reprogramação é o que os arautos da boa nova chamam de arrependimento/metanoia.
Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, bendizei aos que vos maldizem, e orai pelos que vos caluniam.
Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, não lhe negues também a túnica. Dá a todo o que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho reclames.
Assim como quereis que os homens vos façam, do mesmo modo lhes fazei vós também.
Se amardes aos que vos amam, que mérito há nisso? Pois também os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que mérito há nisso? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes àqueles de quem esperais receber, que mérito há nisso? Também os pecadores emprestam aos pecadores, para receberem outro tanto.
Amai, porém a vossos inimigos, fazei bem e emprestai, nunca desanimado; e grande será a vossa recompensa, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus.
Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.
Vendo-se as coisas por esta ótica, fica evidente que a parábola do filho pródigo (Lucas 15:11-32) não é contada para constrastar um filho austero e um filho devasso, nem para mostrar a diferença entre um filho volúvel e um pai constante. O conflito central da parábola só é colocado em andamento quando o filho pródigo aparece arrependido no horizonte, porque esta narrativa serve para constrastar duas atitudes possíveis de uma comunidade diante do arrependimento. Por um lado, o pai acolhe o arrependimento como motivo de júbilo e ressocialização; por outro, o filho mais velho vê a inclusão como motivo de ódio e horror.
A lição da parábola está em que na visão de mundo do reino a inclusividade, o perdão e a misericórdia nunca devem ser vistos com rancor ou como falta de critério, mas como ensejo para a mais irrestrita e exuberante celebração. A narrativa explica que é mais fácil um de fora arrepender-se (isto é, sentir-se disposto a incluir e a ser incluído) do que os que se sentem incluídos se mostrarem dispostos a abraçar sem qualquer trâmite os de fora. O verdadeiro desafio do arrependimento, o verdadeiro funil da conversão de mentalidade exigida pelo reino, é sermos capaz de engolir gostosamente essa medida geral e irrestrita de inclusão.
Mas a boa nova não se cala, e insiste imoderadamente que a conversão de mentalidade do reino está ao alcance de todos – até mesmo de patifes como nós, que via de regra não nos consideramos pecadores como os outros. Porém, a história conta que para nós arrepender-se representará aceitar no nosso seletíssimo círculo a inclusão daqueles de que estamos absolutamente convictos não merecem nossa consideração – quanto mais nosso beijo, nosso abraço e um lugar inesperado à mesa.
Luciano Aguilera
