04/01/2010

SOBRE OVELHAS E LOBOS



O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário foge, porque é mercenário e não tem cuidado com as ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor." (João 10.10-16)
Quero falar sobre algumas características muito peculiares das ovelhas, e aqui eu falo do animalzinho mesmo, qualquer semelhança não será mera coincidência. Algumas ovelhas preferem escolher pastagens de qualidade inferior. Isto é uma das coisas que mais apavoram o pastor. As ovelhas, por dificuldade de faro, são susceptíveis a ingerir tudo o que encontram pela frente, não distinguindo as ervas daninhas, que podem lhes fazer mal ou mesmo levá-las a morte. Se no pasto existirem flores ou sementes coloridas, mas venenosas, que atraiam sua atenção, as ovelhas comerão sem saber que estão se envenenando. Elas têm hábitos repetitivos, pastam nos mesmos lugares até que destruam todo o pasto. Defecam no próprio campo onde comem, liberando vermes e parasitas. Se o pastor não dirigí-las a novos pastos, vão repetindo os velhos hábitos. A ovelha teimosa pastará sempre nos mesmos trilhos. O seu fim será o emagrecimento, doenças e sofrimento.
Algumas, em geral as mais velhas, disputam pela liderança do próprio rebanho, empurrando as mais novas para longe das melhores partes do pasto. Na época do outono as fêmeas passam a ser disputadas pelos machos. É o tempo do cio. Estes batem as suas cabeças umas nas outras tentando disputar a fêmea. O pastor sabe que isso pode ferí-los muito, por isso passa uma espécie de óleo em suas cabeças, para protegê-los.
O pior de tudo é que as ovelhas são muito medrosas, assustam-se facilmente e ao mínimo sinal de perigo ou problema elas acabam pulando nos precipícios.
Quando há uma ovelha muito rebelde e fujona no rebanho o pastor costuma quebrar as pernas dela com o seu cajado. Durante o processo de cura o pastor carrega a ovelha em seu colo o tempo todo e lhe dedica uma atenção especial, trazendo alimento, água e remédios. Enquanto a ovelha vai se recuperando, aprende a confiar em seu pastor e, depois de curada, dificilmente voltará a fugir novamente.
Mas cuidado! Os lobos estão rondando o aprisco! Muitos são os lobos pregadores que vão às televisões, rádios e até mesmo à internet vender a imagem de um Deus negociador e ameaçador, somente para fazer valer em seus templos as leis de mercado, oferta e procura. Não estou generalizando, sei que também existem pastores sérios que freqüentam as mesmas mídias com uma palavra revelada e genuinamente centrada em Deus. É preciso fazer uma separação aqui e não julgar os bons pastores pela conduta dos lobos e mercenários, mas o problema é que os lobos estão à solta mesmo, tentando enganar os mais desavisados. Passam por cima de qualquer coisa, até mesmo da verdade bíblica para construírem suas “teo-ideologias de mercado” centradas em seus próprios interesses. Classificam as ovelhas por números e poder aquisitivo ao invés de conhecê-las pelo nome. Os lobos são mestres das meias verdades, dizem facilitar o alcance das bênçãos através do dinheiro depositado em seus cofres. Os lobos não pedem oferta por amor ao Reino e para investir nele, fazem isto pelo seu próprio ventre. Ameaçam as ovelhas, não para curá-las, mas para mantê-las presas ao medo e ao seu domínio.
Por outro lado, algumas ovelhas não se podem fazer desculpáveis, porque elas mesmas são quem se deixam levar pelo cenário colorido, pintado pelo lobo, sem se dar conta de suas armadilhas e acabam sofrendo com as decisões tomadas. Ali são espoliadas de sua lã, carne e gordura. Os lobos, enganadores de ovelhas, conseguem se articular e, mentindo, transferem a culpa de seus atos para o aprisco, como se a condição de ser ovelha fosse a causadora da existência sádica do predador e mercenário. O resultado é a enorme quantidade de gente ferida, dentro e fora das igrejas, mutiladas, traumatizadas, é gente que desistiu de ser ovelha porque lembra e tem medo da mordida do lobo.
Mas, graças a Deus! Que nós não estamos sozinhos neste imenso aprisco chamado "igreja". Jesus, o bom pastor, nos chama pelo nome, está disposto a tirar os carrapichos de nossa lã, derramar bálsamo em nossas feridas e nos defender dos lobos com a própria vida. Somos ovelhas do seu rebanho e Nele temos provisão de bom alimento, aconchego e a segurança dos seus braços.
A chave para discernir entre o lobo e o pastor é a voz. As ovelhas reconhecem a voz de seu Senhor Pastor e sentem segurança ao ouvi-la. Precisamos nos familiarizar cada vez mais com esta voz a fim de que não sejamos levados por qualquer ameaça. Logo, estar junto ao som de Suas palavras é o lugar mais seguro do aprisco.
Nele temos segurança e paz, carinho e refúgio, alimento e cura. Ainda há tempo de ser levado aos pastos verdejantes e às águas tranqüilas. Podemos confiar no consolo da vara e cajado do Senhor. Sabemos que Nele somos defendidos de nossos inimigos e recebemos porções transbordantes de alegria. Nossa confiança é que com Ele habitaremos entre a bondade e a misericórdia para todo o sempre.
O Deus Pastor te abençoe rica, poderosa e sobrenaturalmente!

Pablo Massolar


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TIVE FOME, TIVE SEDE E… O recomeço num quarto de hotel

Como é a vida nas hospedarias públicas que abrigam quem perdeu tudo o que tinha – como operários, professores e advogados

NELITO FERNANDES

Stefano Martini

DENTRO E FORA
Formado em turismo e com certificado de proficiência em inglês, Rafael (acima) perdeu tudo e foi morar na rua. Boa parte dos 400 usuários do programa não tem renda e passa o dia na porta dos hotéis, como o grupo abaixo

Stefano Martini

O cheiro é azedo, uma mistura de suores. Empurrado por ventiladores que não conseguem vencer o calor, ele se impõe pelos corredores, esbarra em tudo como se fosse palpável, gruda em nosso corpo e se funde em nosso próprio suor. No quarto 103 do Hotel Santana, uma das cinco hospedarias da prefeitura do Rio de Janeiro que abrigam ex-moradores de rua, um radinho toca Ana Carolina ao fundo, bem baixo. Eu só quero saber em qual rua/A minha vida vai encostar na tua, diz a letra. Somos quatro num quarto de 12 metros quadrados. A proximidade aumenta o calor. Dois homens dormem num beliche, outro está a meu lado, num colchão, e eu ocupo uma cama. O rapaz do beliche de cima tosse, se levanta trôpego, entra no banheiro e sai molhado do chuveiro. Ele não volta para a cama: deita pelado no chão para tentar fugir do ar quente. O locutor anuncia que são 3h30. Eu cogito desistir de passar a noite ali e voltar para casa. Olho para o lado e penso naqueles que não têm essa opção. É dormir ali ou na rua.

Num hotel parecido, a 100 metros dali, mora Rafael. Ele diz que trabalhou durante dez anos como professor de uma escola de inglês em Teresópolis, na serra fluminense. A escola era uma franquia e estava prestes a fechar as portas quando o dono propôs a Rafael que assumisse o negócio. O professor viu ali a oportunidade de dar uma virada em sua vida e realizar o sonho de boa parte da classe média: de empregado, viraria patrão. O curso, que tinha 120 alunos, quebrou em seis meses. Para se livrar de dívidas que chegavam a R$ 30 mil, Rafael entregou a franquia sem receber nada. Foi despejado do apartamento em que morava e se mudou para o Rio disposto a recomeçar. O pouco dinheiro que tinha acabou antes de ele arrumar emprego. Foi morar na rua e passou a comer só quando a caridade dos outros permitia. “Uma decisão errada, e sua vida vira de cabeça para baixo”, diz ele. Aos 44 anos, formado em turismo e com o certificado Cambridge de proficiência em inglês, virou mendigo. Hoje, seus bens se resumem a três calças, seis camisas e três cuecas, guardadas no armário de um hotel gratuito da prefeitura para ex-moradores de rua.

O professor divide o quarto com um advogado de 55 anos formado pela Universidade Federal Fluminense, uma das mais respeitadas do Rio. Como Rafael, o advogado não quer que seu nome seja publicado, nem aparecer nas fotos, resquícios de um orgulho de classe média que as ruas não levaram. Pede para ser chamado de Henrique. Ele morava com a irmã e ganhava R$ 3.500 mensais como advogado de uma seguradora. Brigou com o cunhado e decidiu sair de casa. Alugou um quarto e vivia bem até que perdeu o emprego e nunca mais conseguiu se recolocar. Foi viver na rua e teve de vender as roupas que havia comprado nos tempos em que tinha salário. Com medo de ser agredido, dormia sob as marquises do Hospital Souza Aguiar, no centro do Rio. “Por mais que você imagine que tudo pode dar errado, nunca pensa que um dia pode virar um mendigo”, diz, frustrado por ter estudado e trabalhado a vida toda. “Tem dias que me bate uma depressão e eu pergunto a Deus o que foi que eu fiz de errado.”

Rafael e Henrique são a elite de um mundo pouco conhecido: o dos 400 hóspedes que ocupam cinco hotéis arrendados pela prefeitura do Rio de Janeiro para abrigar moradores de rua. Estão no limiar da mendicância, um limbo que comporta de advogados a pedreiros, de professores a andarilhos – gente que já teve o bastante e gente que jamais teve o suficiente. Os hotéis que eles ocupam já foram pontos de encontro de prostitutas na região central da cidade. Hoje, são mantidos pela prefeitura, a um custo total de R$ 228 mil mensais, o que dá uma diária de R$ 19 por hóspede. O programa atende quem é considerado capaz de voltar a ter uma vida normal, segundo uma avaliação feita por assistentes sociais. A cidade de São Paulo tem um programa parecido, que começou em 2008: os “hotéis sociais”. São dois hotéis na região central da cidade, com 153 vagas. Os quartos recebem no máximo quatro hóspedes e lá também existem assistentes sociais de plantão. Cada usuário custa, em São Paulo, R$ 12,90. Assim como no Rio, os hóspedes são encaminhados depois de passar por uma triagem.

As regras são rígidas. Ninguém pode entrar ou sair do hotel após as 22 horas, a menos que seja para trabalhar. Não são permitidos bebidas alcoólicas nem alimento de nenhum tipo nos quartos. Não se podem receber visitas. Quem é flagrado com drogas ou bebidas alcoólicas dentro do hotel é desligado do programa. Faltas leves geram advertências. Com três, o hóspede corre o risco de sair. Na noite em que dormi no Hotel Santana, para cada regra havia um hóspede rebelde. Um homem tentou entrar com três latas de cerveja dentro do short. Mais cedo, num hotel a 100 metros dali, um hóspede denunciou outro que tinha um saco de maconha. O denunciado retrucou dizendo que as regras não valiam para todos, as assistentes sociais tentaram apaziguar e logo o dono do saco de maconha ficou descontrolado e começou a gritar. Um terceiro hóspede, com o olho roxo como quem levou um soco, se meteu na confusão e acabou pedindo para ir embora. A vigilância é severa, mas não infalível. Para burlar as normas, não é raro que drogas e bebidas entrem pelas janelas dos hotéis, içadas. A realidade da vida dura das ruas não respeita muros. Nem leis.

Uma vez que passam a viver nos hotéis, os ex-sem-teto têm mais que um lugar para dormir, com banheiro e um local para fazer as três refeições diárias. Eles ganham um endereço fixo – o primeiro passo para se candidatar a um emprego e, quem sabe, tomar um novo rumo na vida. Eles podem receber correspondência, mas não é permitido passar o dia todo na cama. Às 8 horas da manhã, todos devem deixar os quartos. Os hóspedes, ou “usuários”, podem voltar às 16 horas. Muitos não têm o que fazer durante o dia e ficam perambulando em frente aos hotéis, o que incomoda a vizinhança. “A reclamação acontece porque infelizmente as pessoas não querem o morador de rua na rua, nem o morador de rua por perto”, diz o secretário municipal de Assistência Social, Fernando William. “Esquecem que eles são gente.”

No Rio, são cinco hotéis. Cada um dos 400 hóspedes custa R$ 19 por dia. Em São Paulo há dois hotéis

FONTE:    ÉPOCA - Sociedade - NOTÍCIAS - O recomeço num quarto de hotel

03/01/2010

Dinheiro? Para quê?

O irlandês Mark Boyle viveu um ano sem um tostão para convencer o mundo de que dinheiro é bobagem

RODRIGO TURRER

Matt Cardy

SOLITÁRIO
Mark Boyle na Inglaterra, nos primeiros passos para viver um ano sem dinheiro. “É possível o mundo viver assim”, diz

O irlandês Mark Boyle quer convencer o mundo de que o dinheiro é supérfluo. Há quase um ano traçou um plano mirabolante para erradicar o dinheiro dos bolsos de todos. Para dar o exemplo, se desfez de seus bens e foi morar em um trailer, nas cercanias de uma fazenda de alimentos orgânicos em Bristol, na Inglaterra. Pegou meia dúzia de roupas e uma bicicleta. Dos bens manteve o celular, que só recebe chamadas, e o laptop, ambos alimentados por energia solar. Improvisou um fogão a lenha, em que cozinha o que planta, um chuveiro com painel solar e uma escova de dentes feita de conchas e sementes de erva-doce. Seu banheiro é um buraco no chão; o papel higiênico, jornais velhos ou plantas anatomicamente adequadas.

Boyle afirma ter encontrado o sentido de sua vida na faculdade de economia, por volta de 2001, graças ao filme biografia Gandhi, sobre o líder pacifista indiano. “O chapa da tanga me ensinou uma lição gigante: seja a mudança que você quer ver no mundo.” Ainda recém-formado, Boyle não tinha ideia de qual mudança desejava ser. Resolveu ganhar dinheiro – de modo ecologicamente ético, claro. Abriu uma empresa de comércio de alimentos orgânicos. Apesar do relativo sucesso, continuava insatisfeito. “Eu me dei conta de que nem mesmo negócios sustentáveis conseguem mudar as coisas.” O que seria suficiente? “Em vez de diagnosticar as doenças do mundo e protestar contra elas, pensei em me tornar um homeopata social, com tratamentos longos”, diz Boyle. Sua primeira medida foi trocar o nome de batismo Mark Boyle por Saoirse – pronuncia-se “Sir-chu”, palavra em gaélico para “liberdade”. Em seguida criou uma comunidade virtual para “troca de conhecimentos solidários”, o Freeconomy (justfortheloveofit.org). Lá as pessoas podem se filiar, declarar suas habilidades – de cortes de cabelo a reparos na casa – e doá-las a quem precisar. A ideia ainda não entusiasmou muita gente. Em quase dois anos, 14.382 pessoas de 118 países se inscreveram no Freeconomy, menos de 123 engajados por país.

“A raiz da insegurança e do medo do mundo é o dinheiro. O que aconteceria se me livrasse dele?”

Para divulgar sua iniciativa, Boyle – ou Saoirse – conta que começou uma peregrinação até a terra de seu mentor, Gandhi. A pé. Mil dias de caminhada a partir da Inglaterra, passando por França, Itália, Eslovênia, Croácia, Sérvia, Bulgária, Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão e Índia. O projeto começou em março de 2008 e foi abortado em abril, por problemas linguísticos, segundo ele. “Os franceses me disseram que não ajudariam ninguém que não falasse francês...”, afirma Boyle, que só fala inglês e arranha espanhol.

No caminho de volta, Boyle teve seu derradeiro lampejo: “A raiz de toda a insegurança e medo do mundo é o dinheiro. O que aconteceria se me livrasse dele?”. Em dezembro do ano passado, ele pôs em prática o plano de erradicar o dinheiro da humanidade. “Nos próximos 20 anos, as pessoas terão de repensar a forma como vivem, consomem e desperdiçam”, afirma Boyle. “Meu plano é mostrar que é compensador e podemos construir uma comunidade sem dinheiro.”

fonte:     ÉPOCA - Mundo - NOTÍCIAS - Dinheiro? Para quê?

Por quê eu desisti de servir os pobres

 De um texto absolutamente devastador do insubordinado Claudio Oliver. Posso ter de processá-lo por massacrar sem dó as ilusões que venho alimentando tão ternamente há anos. Paulo Brabo

Claudio Oliver

Quem me conhece e sabe de toda minha trajetória de vida deve achar no mínimo curioso o título acima. Minha família tem como referência central as figuras de meu avô e minha avó paternos que foram fundadores do Exército da Salvação no Brasil. Vidas dedicadas a mendigos, prostitutas, e de maneira especial aos orfãos, enfermos e renegados. Minha paixão adolescente se viu conquistada por lutas contra a pobreza, a fome e a injustiça e desde quando me casei, há 25 anos atrás, estive envolvido com servir em favelas, a estudantes pobres, populações carentes, mendigos, bairros periféricos, desempregados e pessoas sem renda. Tenho no currículo o fato de ter ajudado a gerar renda, facilitar a organização de famílias, feito pontes entre ricos e pobres, alimentado pessoas e dado a oportunidade de que outros descobrissem profissões, estudassem e transformassem seu futuro. “Empoderar” as pessoas, foi um dia um dos pontos chave de minha prática de não criar dependência. Depois de tudo isso, sou chamado a questionar toda a vida e a desistir de servir aos pobres.
Ao longo da vida guardo o hábito de sempre perguntar se o que estou fazendo tem sentido, se diante de meu Senhor e Deus estou com meu coração alinhado à Sua vontade, se não estou errando o alvo. Sigo com disciplina a regra dos três “por quês”, que pergunta a cada resposta dada o tipo de pergunta que só as crianças sabem fazer e que me auxilia a gerar um vetor de mudança permanente, de auto-crítica e de realinhamentos pessoais. Assim, a cada etapa, ao fazer cada coisa pergunto: Por quê? E qualquer que seja a resposta, a ela de novo pergunto: Por quê? Me sinto no caminho quando aquilo que faço ultrapassar o terceiro por quê, e daí sigo adiante.
Já faz algum tempo me pus a refletir sobre a vida de Jesus, sobre o princípio da Kenosis, ou esvaziamento, baseado no texto de Filipenses 2:1-11, sobre a encarnação de Jesus na realidade e sobre os inúmeros contatos e conversas dele com gente tão miserável como os leprosos e tão ricas como publicanos, chefes de sinagoga e príncipes de seu povo; com famílias da classe média, com proprietários e com servos e mendigos. Sobre o que ele via e como agia. E tudo isso foi crescendo e me fazendo pensar no texto de Mateus 5, de ele dizer aos pobres que mantivessem suas vidas no caminho e animados por serem pobres, por que deles era a possibilidade de terem a vida dirigida e controlada por Deus e perceberem Sua boa e perfeita vontade.
Devagar, nos últimos anos, além da reflexão bíblica, tenho observado o quanto vários amigos extremamente sinceros vem e vão, se empolgam e começam a servir e logo se ocupam de volta com seus afazeres e preocupações. Vejo também com que freqüência alguns outros pagam para que alguém cumpra o serviço de Deus e fazem isso por tempos determinados e movidos da maior das sinceridades, ainda que de longe e sem envolvimento pessoal.
De uma outra perspectiva observo o quanto a pobreza se entranha na vida dos pobres, e quanto esta somente revela muitas vezes seu desejo mal sucedido de possuir, de ter acesso ao consumo destruidor de tudo, de como sua situação se constrói pela sedução das mesmas coisas que seduzem e destroem os ricos. O mesmo individualismo, o mesmo egoísmo, a mesma tendência a sentir-se confortável e identificado com a posse das coisas. E a adesão inegociável a um estilo de vida e modo de pensar que os prende ao mito da necessidade moderna, ao desejo mítico de evoluir e à submissão ao mito do desenvolvimento.
Igualmente a ricos, pobres e remediados, o mesmo convencimento de que o que precisam é de algo que o mercado, o dinheiro, o governo ou alguma agência pode lhes oferecer. Que serão felizes com a posse, com a pança cheia (uns com pão, outros com brioches) e com o fluir permanente do dinheiro que tudo pode e tudo resolve. E dentre estes, alguns bem intencionados estendem a mão para “incluir” outros no estilo de vida ou no patamar que alcançaram. À mão estendida de cima para baixo, chamamos serviço.
Descobri ao longo dos anos que a própria posição de servir aos pobres, de compromisso com a libertação, estava cheia de superioridade, daquele tipo de superioridade que se traduz por dar ao outro o que eu tenho, uma vez que sutilmente assumo com meus atos que o que eu tenho ou faço era o que ele deveria ter ou fazer, uma tradução percebida na sutil arrogância das tais políticas de “inclusão”, sempre buscando colocar o outro dentro da caixa onde vivo, incluído no meu estilo de vida.
Tudo isso foi me levando a desistir de servir os pobres. Ainda que nem de longe me alinhando com aqueles que a este ponto, do alto de sua riqueza, conforto e bem estar possam estar dizendo “ta vendo? É isso que eu sempre pensei.” Lamento informar a estes que nem de longe creio em seu estilo de vida separado do contato com o pobre, com o desvalido, o faminto, o nu, o feio, o mal cheiroso, o inculto e o bárbaro. Não me alinho com aqueles que pagam seus impostos ou contribuem para caridade dizendo assim estar cumprindo seu papel. Não é disso que falo. A estes continuo retransmitindo a mensagem de Jesus, confrontadora de seu estilo de vida cego, insensível e arrogante, uma mensagem que chama de loucura aquilo que estes chamam de segurança.
Desisti de servir os pobres por outra razão.
Desde 1993, quando saí para as ruas com um bando de meninos e meninas na direção das populações de rua, havia desenvolvido uma mística de, a cada saída nas noites frias de minha cidade, não ir encontrar mendigos, ou carentes. Sempre dizia aos garotos àquela época que eu nunca me disporia a servir pão a um mendigo, ou fazer-lhe a cama, ou vestir sua nudez. Nosso moto, naquele tempo, era “encontrando Jesus na pessoa do pobre mais pobre”. Servir, alimentar e vestir Jesus era nossa motivação, isso sim me animava. E descobrimos com aquelas saídas, que a cada encontro desse com um Jesus assim disfarçado, que os chamados miseráveis se transformavam em mestres, em denunciadores de nossa miséria pessoal, de desmascaradores de nossos mecanismos de manipulação e nos víamos, de repente, espelhados neles, usando as mesmas desculpas, mentiras e escaramuças para ter o que queríamos. Talvez com um pouco mais de sucesso, e certamente simplesmente com mais sorte social, e mecanismos de segurança. Mas descobrimos à época, que nós éramos eles.
Aqueles que se descobriram assim, se libertaram, cresceram e mudaram. Confrontados por Jesus e ensinados por ele no contato com suas próprias pobrezas e misérias, descobrimos, muitos de nós, o que eram boas novas. Naquele tempo, e daquele tempo, muitos fomos transformados pelo toque de Jesus e pela boa nova que ele nos tinha a transmitir como pobres que nos descobrimos.
No entanto, nem sempre esta mística foi mantida como chama acesa, voltei tantas vezes a servir aos pobres, a me deixar levar pela possibilidade de estar na posição de ajudador e fui me esquecendo muitas vezes de minha própria miséria.
Como disse acima, ficar longe dos pobres e julgar suas atitudes e descaminhos do alto do conforto de minha posição social superior não é a alternativa que exponho aqui. Ajudar os pobres, conscientiza-los e inclui-los se mostra um mito, mais um daqueles nascidos no desenvolvimentismo dos últimos 60 anos. A alternativa que apresento é outra, traduzida no encontro, no reconhecimento e na identificação.
Desisti de ajudar os pobres, de servi-los e de salva-los. E isso porque tenho re-descoberto uma verdade dura: a de que Jesus não tem nenhuma boa notícia para quem serve os pobres. Jesus não veio trazer boas notícias a quem serve os pobres, ele trouxe uma boa notícia aos pobres. Ele não tem nada a dizer a outros salvadores, a quem disputa com Ele o cargo de Messias, de Redentor. A agenda de Jesus só traz uma mensagem aos que se reconhecem pobres, nus, feridos, cansados, sobrecarregados, carentes e sem esperança. Aos demais, sua agenda tem pouco ou nada a oferecer
A única maneira de permanecer com os pobres é se descobrimos que somos nós mesmos os miseráveis, é se reconhecemos a nós mesmos, ainda que bem disfarçados, naquele que está diante de nossos olhos. Ao encontrarmos neles nossa miséria, ao nos dar-mos conta de nossa carência, da desesperada necessidade de sermos salvos, ai nos encontramos com a agenda de Jesus.
Deus não se apresenta em nossa capacidade de curar, mas em nossa necessidade de sermos curados. Descobrir esta nossa fraqueza nos coloca sem nada para oferecer, servir, doar, mas revela nossa necessidade de sermos amados, curados e restaurados.
Por ai é que faz sentido que o poder que existe em nós não é o poder de nossas capacidades e riqueza, mas o poder residente em nossa miséria pessoal, tão bem escondida e disfarçada em nossas posses e estabilidade. Como diz Jean Vanier em um livro que li recentemente: “Somos chamados a descobrir que Deus pode trazer paz, compaixão e amor através de nossas feridas”
Como passou a fazer sentido o texto que fala do Messias, e que diz: pelas suas pisaduras, fomos sarados. Os demais messias tendem a escapar do exemplo de Jesus de esvaziar-se a tal ponto de ser um de nós, de morrer conosco e de abrir assim a porta da ressurreição para nós.
O poder que Jesus usou para nos curar e continuar curando não reside em seu acesso ao poder universal, mas em sua identificação conosco na cruz. Em se abrir em chagas e feridas, em se tornar um de nós, em viver nossa vida.
Desisti de servir aos pobres. Estou voltando a encontrar os pobres e me encontrar neles. Voltei a descobrir a miséria que se esconde nas vidas bem montadas de nossa falsa segurança. E com isso posso entender o Jesus que fala com leprosos e com ricos homens de negócios, com cobradores de impostos em suas festas e com enfermos miseráveis. Em sua identificação com todos e cada um Ele via o que talvez mais ninguém via: a extrema miséria e pobreza da condição humana, independente de qualquer status ou roupagem social.
Passei a reencontrar minha pobreza, a me ver em cada situação de miséria, e de me colocar em contato com minhas dores internas. Dali clamar por cura, libertação, comunidade e amor. Pedir misericórdia e ser restaurado.
Quem serve, serve de cima, Jesus nos chama a encarnar a nos vermos no outro e a nos colocarmos por baixo. A deixar de confiar em nossa capacidade e mudar o rumo para irmos ao encontro de nossas feridas e dores. De lá descobrir o poder que existe em sermos menos e não mais.
Desisti de servir aos pobres. Voltei a descobrir minha pobreza. E com ela posso clamar: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim”
Texto escrito pelo autor no blog Na Rua com Deus e dica do Paulo Brabo do blog Bacia das Almas

FONTE:    Fora da Zona de Conforto!: Por quê eu desisti de servir os pobres