26/08/2010

Sabedoria Bíblica: Lar

 





Capítulo 13: Lar

Essa palavra "lar" sempre soa como poesia para mim. Ela ressoa como o repique dos sinos em um casamento, apenas soa mais suave e terno nas fibras mais íntimas do meu coração. Não importa se ela refere-se a uma cabana de sapé ou a um solar: lar é lar, mesmo que seja muito simples não há lugar na terra como ele. A trepadeira pode crescer em cachos róseos pelo telhado para sempre, deixando o musgo florir no sapé. Os pardais chilreiam docemente, e as andorinhas gorjeiam à volta do lugar escolhido que é a minha alegria e o meu descanso. Todo pássaro ama seu ninho; a coruja acha a velha ruína o lugar mais sereno sob a lua, e a raposa sente que sua cova na montanha é extraordinariamente aconchegante.

Quando o alazão do meu senhor sabe que está indo para casa, ele não precisa de guia e pensa: é melhor ir a galope; e eu penso o mesmo, pois o caminho de casa para mim é o melhor pedaço de estrada do país. Eu gosto mais de ver a fumaça da chaminé da minha casa, que o fogo no forno dos outros; há algo muito lindo no caminho que serpenteia entre as árvores. As batatas frias na mesa da minha casa têm mais sabor que a carne assada na dos meus vizinhos, e o perfume da madressilva na minha porta é o mais doce que eu já senti. Quando você está fora, os amigos o recebem da melhor forma que podem, mas mesmo assim não é a nossa casa. Eles dizem: "Sinta-se em casa", porque todo mundo sabe que sentir-se em casa é sentir-se à vontade.


Leste e oeste
o lar é melhor.

Porque em casa você está em casa, o que mais você pode querer? Ninguém inveja você, seja qual for seu apetite; e você nunca se deita em uma cama úmida. Salvo em seu castelo, como um rei em seu palácio, o homem se sente alguém e não sente medo de ser considerado orgulhoso por pensar assim. Todo galo canta em seu terreiro, é o cachorro sente-se um leão quando está em casa. A vassoura é a senhora do seu armário. Não há necessidade de cuidar de cada palavra, porque algum inimigo pode estar observando, nem manter o coração fechado a sete chaves; tão logo fechamos a porta de entrada abre-se o saguão da liberdade sem nada a espreitar-nos. A nossa querida e velha Surrey, tem uma vista magnífica do topo da montanha Leith, e não devemos desprezar a Hindhead e a capela Marthas e a Boxhill, mas eu poderia mostrar a vocês uma coisa que, a propósito, bate todas elas em beleza. Refiro-me à cabana de João Lavrador, em que a chaleira ferve na lateral do fogão, cantando como um anjo negro não caído, enquanto o gato fica deitado adormecido em frente ao fogo, a esposa se senta em sua cadeira remendando as meias, e as crianças ficam andando pela sala tão cheias de alegria como os cordeirinhos. É um fato curioso, talvez alguns de vocês duvidem disso, mas isso deve-se a sua natureza descrente – nossos pequenos são sempre uma verdadeira beleza, um pouco mais gordos do que os outros da sua idade e, mesmo assim, dão bem menos trabalho para tomar conta que os bebês dos outros. Porque, abençoada seja ela, minha esposa se cansaria na metade do tempo se sua vizinha tivesse pedido a ela para olhar uma criança estranha, mas seus filhos não parecem cansá-la de forma alguma. Creio que tudo isso vem do fato de terem nascido em casa. Na verdade, o mesmo acontece com tudo o mais, nossa terra é a mais bonita nos trinta quilômetros a nossa volta, porque nosso lar está nela, e meu jardim é um perfeito paraíso, por nenhuma razão especial além desta muito boa: ele pertence à velha casa do meu lar.

Eu não consigo compreender porque muitos trabalhadores gastam as noites em hospedarias, quando suas lareiras são bem melhores e mais baratas também. Nas hospedarias, eles se sentam, hora após hora, se embriagando e falando besteiras, esquecendo as pessoas queridas em casa quase mortas de fome e cansadas de esperar por eles. Seu dinheiro vai para a gaveta do estalajadeiro, quando deveria levar conforto à esposas e aos filhos. Quanto à cerveja que bebem é como o leite dos tolos, serve apenas para afogar sua inteligência. Tais camaradas deveriam ser chicoteados como cavalos, e os que os encorajam e vivem à custa deles mereciam sentir a ponta do chicote. Esses bares são a maldição deste país; ninguém de bem entra neles, e o mal que eles fazem nenhuma língua pode contar. As estalagens já eram bastante ruins, mas os bares são uma praga; eu gostaria que o homem que elaborou a lei para a abertura deles tivesse de manter todas as famílias que eles levaram à ruína. Os bares são os inimigos do lar e, portanto, quanto mais cedo suas licenças forem caçadas, melhor. Tudo o que prejudica o lar é uma maldição e deve ser eliminado, como os guardas-caças fazem com a enzima das florestas.

Os maridos devem tornar o lar feliz e sagrado. O pássaro que suja o próprio ninho é doente, e o homem que torna seu lar miserável é mau. Nossa casa deve ser uma pequena igreja com a santidade de Deus acima da porta, mas jamais deve ser uma prisão em que há um monte de regras e ordens, mas pouco amor e nenhum prazer. A vida de casado não é sempre doce, mas a graça no coração mantém afastada a maior parte das amarguras. A religiosidade e o amor edificam o homem, assim como o pássaro em uma reserva que canta entre espinhos e arbustos também faz com que os outros cantem. O marido deve ter prazer em agradar sua esposa, e a esposa, esmero em cuidar do seu marido. Quem é gentil consigo mesmo é gentil com sua esposa. Receio que alguns homens vivam pela lei do individualismo, e quando esse é o caso, a felicidade do lar é uma farsa. Quando os maridos e as esposas são muito unidos, como sua carga se torna leve! Nem toda dupla é um par, o que é uma pena. Em um lar verdadeiro toda a disputa é para ver quem pode fazer o melhor para tornar a família feliz. Um lar deve ser um santuário, não uma Babilônia. O marido deve ser o "vínculo do lar", unindo como uma pedra angular, e não esmagando tudo como uma pedra de tropeço. Maridos grosseiros e dominadores não devem ter a pretensão de ser cristãos, pois agem totalmente contra os ensinamentos de Cristo. Por outro lado, um lar deve ser bem comandado ou se torna uma confusão e um escândalo para a igreja. Se o pai larga as rédeas da casa, o treinador da família logo está no fosso. Uma mistura sábia de amor e firmeza possibilita um bom comando, mas nem a aspereza nem a amabilidade sozinhas mantêm um lar feliz.

Um lar não é um lar se as crianças que vivem nele não forem obedientes; é mais uma dor que um prazer estar nele. Feliz é quem consegue ser feliz com seus filhos, e felizes são as crianças que estão felizes com o pai que têm. Nem todos os pais são sábios. Alguns são como Eli e estragam seus filhos. Não se opor aos nossos filhos é o caminho para transformá-los em uma cruz em nossa vida. Os que nunca castigam os filhos não podem se admirar se seus filhos se transformarem em um castigo para eles. Salomão ensina: "Discipline seu filho, e este lhe dará paz; trará grande prazer à sua alma", Eu não estou certo de que hoje haja alguém mais sábio do que Salomão, apesar de alguns pensarem que são. Os potros novos devem ser freados ou viram em cavalos selvagens. Alguns pais são apenas irritação e fúria que inflamam à menor falta; isso é pior ainda e transforma o lar em um pequeno inferno, em vez de um paraíso. Sem vento o moinho fica preguiçoso, contudo, o excesso de vento danifica o moinho. Em geral, os homens que golpeiam com sua raiva perdem seu limite. Vai tudo bem quando Deus nos ajuda a segurar as rédeas firmemente, mas sem machucar a boca dos cavalos. Quando o lar é governado de acordo com a palavra de Deus, podemos convidar os anjos para passar a noite conosco, e eles não se sentirão fora de seu elemento.

As esposas deveriam sentir que o lar é o seu lugar e o seu reino, e que a felicidade dele depende, sobretudo, delas e se forem esposas más levarão os maridos para longe com suas línguas afiadas. Outro dia um homem disse para sua esposa: "Dobre seu chicote." Ele dizia para ela manter a língua quieta, é uma desgraça viver com esse tipo de chicote sempre açoitando-o. Dizem que quando Deus deu ao homem dez normas de discurso, a mulher fugiu com nove e, em alguns casos, receio que o dito seja verdade. Uma esposa, descuidada, negligente e bisbilhoteira é o bastante para deixar o marido louco; e se isso o levar ao bar, ela será a causa disso. É doloroso viver em um lugar em que a esposa, em vez de reverenciar o marido, está sempre brigando e falando mal dele. Deve ser bom quando essas mulheres ficam roucas, é uma pena que elas não tenham tantas bolhas na língua quanto os dentes que têm em suas mandíbulas. Deus nos livre a todos das esposas que são anjos nas ruas, santas na igreja e demônios em casa. Eu nunca experimentei essas ervas tão amargas, mas tenho piedade do fundo do coração dos que suportam essa dieta todos os dias.

Mostre-me um marido amoroso, uma esposa valorosa e crianças gentis, e nem uma parelha de cavalos das que estão sempre voando ao longo da estrada conseguiria, em um ano, levar-me onde eu pudesse ver uma cena mais agradável. O lar é a maior de todas as instituições. Falem sobre o Parlamento, mas me forneçam um parlatório pequeno e sossegado. Se quiserem vangloriem-se sobre o voto e sobre a Grande Reforma Bill (Reforma que aconteceu na Inglaterra em 1832, sob o comando de Lorde John Russell), mas eu prefiro um casamento em um pequeno jardim e ensinar hinos às crianças. O direito de voto é uma coisa muito boa, mas antes disso, eu gostaria muito de conseguir uma hipoteca para minha cabana se pudesse ter dinheiro para comprá-la. Não sei muito sobre a Carta Magna, mas se ela representa um lar sossegado para todo mundo, três vivas para ela. Eu gostaria que nossos governadores não destruíssem os lares de tantos homens pobres por causa de uma lei abominável e desalmada. Ela parece servir mais aos cães raivosos que aos ingleses. Outro dia, um motorista de carro de Hampshire contou-me que sua esposa e seus filhos estavam no asilo para pobres do governo e que seu lar estava arruinado por causa do funcionamento cruel da assistência social. Ele tinha oito pequenos e a esposa para manter com uma ninharia por semana, além disso, com aluguel para pagar; por isso, ele não conseguia manter o corpo e a alma juntos. Contudo, se a igreja tivesse concedido a ele uma bagatela, um ou dois pães e um par de moedas por semana, ele poderia ter se virado, mas não, nem um centavo saiu da igreja. Eles morreriam de fome se não fossem todos para o asilo. Assim, com lágrimas amargas e muita dor no coração, o pobre infeliz teve de vender os poucos móveis que tinham e, agora, é um homem sem lar. Além disso, ele é um trabalhador ótimo e diligente e serviu seu patrão por quase vinte anos.

Casos como esse são comuns, mas não deveriam ser. Por que os realmente pobres não merecem ter uma pequena ajuda? Por que eles são forçados a ir para o asilo? O lar é o pilar do Império Britânico e não deveria ser reduzido a cacos por causa de leis não cristãs. Eu gostaria de ser um orador e poder falar com os políticos. Não me preocuparia em criticar os membros do partido pró reforma ou os partidários de James, os conservadores, eu ficaria em pé como um leão defendendo os homens sem lar e diria para os lordes e para a burguesia, que o lar dos pobres é tão importante para eles como são seus grandes palácios e, muitas vezes, são ainda mais queridos.

Se eu não tivesse lar, o mundo seria uma grande prisão para mim. A Inglaterra é meu país, Surrey, minha região, mas não lhes direi qual é minha aldeia ou passarão a caçar o João Lavrador. Muitos amigos meus emigraram e estão desbravando solo fresco na Austrália e nos Estados Unidos. Embora a pedra deles tenha rolado, espero que eles consigam criar musgo, pois quando estivam aqui eram como a galinha chocadeira que não consegue grãos. Realmente, esses tempos difíceis fazem o homem pensar em suas asas, mas eu estou preso pela perna ao meu lar e, pelo favor de Deus, espero viver e morrer no meio do meu povo. Eles podem fazer coisas melhores na França e na Alemanha, mas, afinal, a velha Inglaterra é tudo para mim.

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NOTA

Reproduzido pelo Projeto Spurgeon com permissão da Shedd Publicações

Sabedoria Bíblica; Conselhos simples para pessoas simples, de C.H. Spurgeon Copyright © Shedd Publicações 1a Edição - Dezembro de 2006 Tradução: Neusa Faraco Skliutas (Todos os direitos reservados por Shedd Publicações, São Paulo, Brasil)

PROIBIDO a REPRODUÇÃO DESSA POSTAGEM E DE SEU CONTEÚDO SEM CITAR ESSA LICENÇA E OS LINKS DA SHEDD PUBLICAÇÕES E DO PROJETO SPURGEON, NA ÍNTEGRA , AO FINAL DA REPRODUÇÃO

FONTE: Sabedoria Bíblica: Lar | Projeto Spurgeon

24/08/2010

Uma Outra Chance para a Igreja

 

Cada um desses lugares onde me encontrei com Deus no passado ( a Metodista Unida, a Capela do Calvário, a Vinha, igrejas emergentes e o lar atual na Igreja Anglicana)… tornaram-se a sementeira para uma nova forma de abordar as práticas espirituais da igreja. Eu estou buscando trazer o melhor de todos elas (Palavra, Espírito, liturgia (com calendário e ofícios), e disciplinas espirituais, para suportar sobre este novo trabalho.

Neste ponto da minha vida, eu basicamente tenho memórias positivas e apreço por tudo que cada tradição e cada grupo me deu. A mensagem aqui não é que tudo e todos no meu passado estavam errados, e que agora eu encontrei a igreja certa: a Igreja Anglicana. Eu conheço melhor.

A mensagem real é que encontrar uma forma de repraticar a fé de qualquer denominação diz respeito principalmente a cada um de nós. O foco aqui é a nossa capacidade de lidar com as práticas da igreja com o propósito de nossa transformação espiritual em primeiro lugar, com o ser embaixadores de Cristo para o bem dos outros um segundo próximo.

Eu sou uma pessoa melhor hoje por causa de todas as pessoas e os acontecimentos de várias épocas da minha a vida. Quando olho para trás, todos os prós e os contras da minha vida foram simplesmente oportunidades para aprender a andar com Deus como um líder para o bem dos outros. Eu bati muito nisso. Eu só conto a história para dar o contexto do qual a minha necessidade de repraticar a igreja vem à tona. Você precisa saber os meus antecedentes e influências, para que possamos fazer um bom trabalho juntos neste livro. Enquanto sou sincero em escrever, você precisa estar alerta para qualquer parcialidade cega que eu involuntariamente sustente. Como Rob Bell gosta de dizer, “Deus tem falado, tudo o resto é comentário, certo?”

Durante o período que eu não freqüentava regularmente a igreja, percebi que um ingrediente importante na minha busca de uma fé repraticada não vem de coisas externas a mim, como eras da minha vida, segmentos da igreja ou denominação, mas as coisas internas a mim – fatias do meu coração, partes da minha alma. De alguma forma, porém, durante a minha “noite escura da igreja”, percebi que Eu simplesmente não podia ficar longe da igreja. Ficar longe, eu percebi, não tinha poder construtivo. O que eu precisava era uma maneira positiva em retomar as práticas espirituais da igreja.

Vamos explorar como podemos encontrar a comum e, muitas vezes rejeitado elementos da vida da Igreja que pode se tornar o ouro nas mãos daqueles que procuram repraticar sua fé.

-Adaptado de “Prefácio: De churched para Dechurched para Rechurched”

Autor: Todd Hunter, Bispo Missionário da Missão Anglicana

Traduzido por http://danieldliver.blogspot.com/

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Giving Church Another Chance – Finding New Meaning in Spiritual Practices

“A maioria daqueles que criticam a igreja de hoje não têm nenhuma idéia o que ela é. Todd Hunter pode ajudá-lo a descobrir, já que ele a toma na sua própria peregrinação de descoberta – no interior. A igreja é uma corrente única da vida espiritual – vida do alto – fluindo através de um breve período da história humana e em um eterno “além”. Jesus Cristo é o único responsável por ela, e nós somos os que hoje precisa de uma segunda chance. Se você escutar atentamente o Hunter, você pode começar a encontrar a Igreja – talvez sem o benefício do edifício, mas lá também. Se o fizer, seu coração vai cantar com alegria. ”
-Dallas Willard, autor de A Conspiração Divina

“Viagens espirituais são coisas interessantes, e Todd é um dos mais interessantes – do líder das igrejas Vineyard, para a casa de pastor da igreja, a chefe de Alpha E.U.A., e agora um bispo anglicano. Conheço Todd por muitos destas incorporações e nós nem sempre concordamos, mas eu tenho sido sempre impressionado com a sua paixão por Deus e o coração dos outros. Neste livro, você vai encontrar as duas coisas – e meu palpite é que você será desafiado a pensar mais profundamente sobre a sua próprio caminhada espiritual. Todd lembra que a igreja não é lugar para ir, simplesmente uma outra reunião, mas o caminho que Deus escolheu tornar-se conhecido no nosso mundo. ”
-Ed Stetzer, presidente da LifeWay Research

“O que você está segurando deve levar uma advertência de saúde do governo: a leitura deste livro é bom para sua alma. Mas tome cuidado: ele pode levá-lo a se apaixonar pela igreja de novo, e o romance de repraticar a sua fé pode ser formador de hábito “.
-Leonard Sweet, autor de So Beautiful: Divine Design for Life and the Church

fonte:  Uma Outra Chance para a Igreja

23/08/2010

Sobre os Desigrejados

 

Para mim resta pouca dúvida de que a igreja institucional e organizada está hoje no centro de acirradas discussões em praticamente todos os quartéis da cristandade, e mesmo fora dela. O surgimento de milhares de denominações evangélicas, o poderio apostólico de igrejas neopentecostais, a institucionalização e secularização das denominações históricas, a profissionalização do ministério pastoral, a busca de diplomas teológicos reconhecidos pelo estado, a variedade infindável de métodos de crescimento de igrejas, de sucesso pastoral, os escândalos ocorridos nas igrejas, a falta de crescimento das igrejas tradicionais, o fracasso das igrejas emergentes – tudo isto tem levado muitos a se desencantarem com a igreja institucional e organizada.

Alguns simplesmente abandonaram a igreja e a fé. Mas, outros, querem abandonar apenas a igreja e manter a fé. Querem ser cristãos, mas sem a igreja. Muitos destes estão apenas decepcionados com a igreja institucional e tentam continuar a ser cristãos sem pertencer ou frequentar nenhuma. Todavia, existem aqueles que, além de não mais frequentarem a igreja, tomaram esta bandeira e passaram a defender abertamente o fracasso total da igreja organizada, a necessidade de um cristianismo sem igreja e a necessidade de sairmos da igreja para podermos encontrar Deus. Estas idéias vêm sendo veiculadas através de livros, palestras e da mídia. Viraram um movimento que cresce a cada dia. São os desigrejados.

Muitos livros recentes têm defendido a desigrejação do cristianismo (*). Em linhas gerais, os desigrejados defendem os seguintes pontos.

1) Cristo não deixou qualquer forma de igreja organizada e institucional.

2) Já nos primeiros séculos os cristãos se afastaram dos ensinos de Jesus, organizando-se como uma instituição, a Igreja, criando estruturas, inventando ofícios para substituir os carismas, elaborando hierarquias para proteger e defender a própria instituição, e de tal maneira se organizaram que acabaram deixando Deus de fora. Com a influência da filosofia grega na teologia e a oficialização do cristianismo por Constantino, a igreja corrompeu-se completamente.

3) Apesar da Reforma ter se levantado contra esta corrupção, os protestantes e evangélicos acabaram caindo nos mesmíssimos erros, ao criarem denominações organizadas, sistemas interligados de hierarquia e processos de manutenção do sistema, como a disciplina e a exclusão dos dissidentes, e ao elaborarem confissões de fé, catecismos e declarações de fé, que engessaram a mensagem de Jesus e impediram o livre pensamento teológico.

4) A igreja verdadeira não tem templos, cultos regulares aos domingos, tesouraria, hierarquia, ofícios, ofertas, dízimos, clero oficial, confissões de fé, rol de membros, propriedades, escolas, seminários.

5) De acordo com Jesus, onde estiverem dois ou três que crêem nele, ali está a igreja, pois Cristo está com eles, conforme prometeu em Mateus 18. Assim, se dois ou três amigos cristãos se encontrarem no Frans Café numa sexta a noite para falar sobre as lições espirituais do filme O Livro de Eli, por exemplo, ali é a igreja, não sendo necessário absolutamente mais nada do tipo ir à igreja no domingo ou pertencer a uma igreja organizada.

6) A igreja, como organização humana, tem falhado e caído em muitos erros, pecados e escândalos, e prestado um desserviço ao Evangelho. Precisamos sair dela para podermos encontrar a Deus.

Eu concordo com vários dos pontos defendidos pelos desigrejados. Infelizmente, eles estão certos quanto ao fato de que muitos evangélicos confundem a igreja organizada com a igreja de Cristo e têm lutado com unhas e dentes para defender sua denominação e sua igreja, mesmo quando estas não representam genuinamente os valores da Igreja de Cristo. Concordo também que a igreja de Cristo não precisa de templos construídos e nem de todo o aparato necessário para sua manutenção. Ela, na verdade, subsistiu de forma vigorosa nos quatro primeiros séculos se reunindo em casas, cavernas, vales, campos, e até cemitérios. Os templos cristãos só foram erigidos após a oficialização do Cristianismo por Constantino, no séc. IV.

Os desigrejados estão certos ao criticar os sistemas de defesa criados para perpetuar as estruturas e a hierarquia das igrejas organizadas, esquecendo-se das pessoas e dando prioridade à organização. Concordo com eles que não podemos identificar a igreja com cultos organizados, programações sem fim durante a semana, cargos e funções como superintendente de Escola Dominical, organizações internas como uniões de moços, adolescentes, senhoras e homens, e métodos como células, encontros de casais e de jovens, e por ai vai. E também estou de acordo com a constatação de que a igreja institucional tem cometido muitos erros no decorrer de sua longa história.

Dito isto, pergunto se ainda assim está correto abandonarmos a igreja institucional e seguirmos um cristianismo em vôo solo. Pergunto ainda se os desigrejados não estão jogando fora o bebê junto com a água suja da banheira. Ao final, parece que a revolta deles não é somente contra a institucionalização da igreja, mas contra qualquer coisa que imponha limites ou restrições à sua maneira de pensar e de agir. Fico com a impressão que eles querem se livrar da igreja para poderem ser cristãos do jeito que entendem, acreditarem no que quiserem – sendo livres pensadores sem conclusões ou convicções definidas – fazerem o que quiserem, para poderem experimentar de tudo na vida sem receio de penalizações e correções. Esse tipo de atitude anti-instituição, antidisciplina, anti-regras, anti-autoridade, antilimites de todo tipo se encaixa perfeitamente na mentalidade secular e revolucionária de nosso tempo, que entra nas igrejas travestida de cristianismo.

É verdade que Jesus não deixou uma igreja institucionalizada aqui neste mundo. Todavia, ele disse algumas coisas sobre a igreja que levaram seus discípulos a se organizarem em comunidades ainda no período apostólico e muito antes de Constantino.

1) Jesus disse aos discípulos que sua igreja seria edificada sobre a declaração de Pedro, que ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16.15-19). A igreja foi fundada sobre esta pedra, que é a verdade sobre a pessoa de Jesus (cf. 1Pd 2.4-8). O que se desviar desta verdade – a divindade e exclusividade da pessoa de Cristo – não é igreja cristã. Não admira que os apóstolos estivessem prontos a rejeitar os livre-pensadores de sua época, que queriam dar uma outra interpretação à pessoa e obra de Cristo diferente daquela que eles receberam do próprio Cristo. As igrejas foram instruídas pelos apóstolos a rejeitar os livre-pensadores como os gnósticos e judaizantes, e libertinos desobedientes, como os seguidores de Balaão e os nicolaítas (cf. 2Jo 10; Rm 16.17; 1Co 5.11; 2Ts 3.6; 3.14; Tt 3.10; Jd 4; Ap 2.14; 2.6,15). Fica praticamente impossível nos mantermos sobre a rocha, Cristo, e sobre a tradição dos apóstolos registrada nas Escrituras, sem sermos igreja, onde somos ensinados, corrigidos, admoestados, advertidos, confirmados, e onde os que se desviam da verdade apostólica são rejeitados.

2) A declaração de Jesus acima, que a sua igreja se ergue sobre a confissão acerca de sua Pessoa, nos mostra a ligação estreita, orgânica e indissolúvel entre ele e sua igreja. Em outro lugar, ele ilustrou esta relação com a figura da videira e seus galhos (João 15). Esta união foi muito bem compreendida pelos seus discípulos, que a compararam à relação entre a cabeça e o corpo (Ef 1.22-23), a relação marido e mulher (Ef 5.22-33) e entre o edifício e a pedra sobre o qual ele se assenta (1Pd 2.4-8). Os desigrejados querem Cristo, mas não querem sua igreja. Querem o noivo, mas rejeitam sua noiva. Mas, aquilo que Deus ajuntou, não o separe o homem. Não podemos ter um sem o outro.

3) Jesus instituiu também o que chamamos de processo disciplinar, quando ensinou aos seus discípulos de que maneira deveriam proceder no caso de um irmão que caiu em pecado (Mt 18.15-20). Após repetidas advertências em particular, o irmão faltoso, porém endurecido, deveria ser excluído da “igreja” – pois é, Jesus usou o termo – e não deveria mais ser tratado como parte dela (Mt 18.17). Os apóstolos entenderam isto muito bem, pois encontramos em suas cartas dezenas de advertências às igrejas que eles organizaram para que se afastassem e excluíssem os que não quisessem se arrepender dos seus pecados e que não andassem de acordo com a verdade apostólica. Um bom exemplo disto é a exclusão do “irmão” imoral da igreja de Corinto (1Co 5). Não entendo como isto pode ser feito numa fraternidade informal e livre que se reúne para bebericar café nas sextas à noite e discutir assuntos culturais, onde não existe a consciência de pertencemos a um corpo que se guia conforme as regras estabelecidas por Cristo.

4) Jesus determinou que seus seguidores fizessem discípulos em todo o mundo, e que os batizassem e ensinassem a eles tudo o que ele havia mandado (Mt 28.19-20). Os discípulos entenderam isto muito bem. Eles organizaram os convertidos em igrejas, os quais eram batizados e instruídos no ensino apostólico. Eles estabeleceram líderes espirituais sobre estas igrejas, que eram responsáveis por instruir os convertidos, advertir os faltosos e cuidar dos necessitados (At 6.1-6; At 14.23). Definiram claramente o perfil destes líderes e suas funções, que iam desde o governo espiritual das comunidades até a oração pelos enfermos (1Tm 31-13; Tt 1.5-9; Tg 5.14).

5) Não demorou também para que os cristãos apostólicos elaborassem as primeiras declarações ou confissões de fé que encontramos (cf. Rm 10.9; 1Jo 4.15; At 8.36-37; Fp 2.5-11; etc.), que serviam de base para a catequese e instrução dos novos convertidos, e para examinarem e rejeitarem os falsos mestres. Veja, por exemplo, João usando uma destas declarações para repelir livre-pensadores gnósticos das igrejas da Ásia (2Jo 7-10; 1Jo 4.1-3). Ainda no período apostólico já encontramos sinais de que as igrejas haviam se organizado e estruturado, tendo presbíteros, diáconos, mestres e guias, uma ordem de viúvas e ainda presbitérios (1Tm 3.1; 5.17,19; Tt 1.5; Fp 1.1; 1Tm 3.8,12; 1Tm 5.9; 1Tm 4.14). O exemplo mais antigo que temos desta organização é a reunião dos apóstolos e presbíteros em Jerusalém para tratar de um caso de doutrina – a inclusão dos gentios na igreja e as condições para que houvesse comunhão com os judeus convertidos (At 15.1-6). A decisão deste que ficou conhecido como o “concílio de Jerusalém” foi levada para ser obedecida nas demais igrejas (At 16.4), mostrando que havia desde cedo uma rede hierárquica entre as igrejas apostólicas, poucos anos depois de Pentecostes e muitos anos antes de Constantino.

6) Jesus também mandou que seus discípulos se reunissem regularmente para comer o pão e beber o vinho em memória dele (Lc 22.14-20). Os apóstolos seguiram a ordem, e reuniam-se regularmente para celebrar a Ceia (At 2.42; 20.7; 1Co 10.16). Todavia, dada à natureza da Ceia, cedo introduziram normas para a participação nela, como fica evidente no caso da igreja de Corinto (1Co 11.23-34). Não sei direito como os desigrejados celebram a Ceia, mas deve ser difícil fazer isto sem que estejamos na companhia de irmãos que partilham da mesma fé e que crêem a mesma coisa sobre o Senhor.

É curioso que a passagem predileta dos desigrejados – “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20) – foi proferida por Jesus no contexto da igreja organizada. Estes dois ou três que ele menciona são os dois ou três que vão tentar ganhar o irmão faltoso e reconduzi-lo à comunhão da igreja (Mt 18.16). Ou seja, são os dois ou três que estão agindo para preservar a pureza da igreja como corpo, e não dois ou três que se separam dos demais e resolvem fazer sua própria igrejinha informal ou seguir carreira solo como cristãos.

O meu ponto é este: que muito antes do período pós-apostólico, da intrusão da filosofia grega na teologia da Igreja e do decreto de Constantino – os três marcos que segundo os desigrejados são responsáveis pela corrupção da igreja institucional – a igreja de Cristo já estava organizada, com seus ofícios, hierarquia, sistema disciplinar, funcionamento regular, credos e confissões. A ponto de Paulo se referir a ela como “coluna e baluarte da verdade” (1Tm 3.15) e o autor de Hebreus repreender os que deixavam de se congregar com os demais cristãos (Hb 10.25). O livro de Atos faz diversas menções das “igrejas”, referindo-se a elas como corpos definidos e organizados nas cidades (cf. At 15.41; 16.5; veja também Rm 16.4,16; 1Co 7.17; 11.16; 14.33; 16.1; etc. – a relação é muito grande).

No final, fico com a impressão que os desigrejados, na verdade, não são contra a igreja organizada meramente porque desejam uma forma mais pura de Cristianismo, mais próxima da forma original – pois esta forma original já nasceu organizada e estruturada, nos Evangelhos e no restante do Novo Testamento. Acho que eles querem mesmo é liberdade para serem cristãos do jeito deles, acreditar no que quiserem e viver do jeito que acham correto, sem ter que prestar contas a ninguém. Pertencer a uma igreja organizada, especialmente àquelas que historicamente são confessionais e que têm autoridades constituídas, conselhos e concílios, significa submeter nossas idéias e nossa maneira de viver ao crivo do Evangelho, conforme entendido pelo Cristianismo histórico. Para muitos, isto é pedir demais.

Eu não tenho ilusões quanto ao estado atual da igreja. Ela é imperfeita e continuará assim enquanto eu for membro dela. A teologia Reformada não deixa dúvidas quanto ao estado de imperfeição, corrupção, falibilidade e miséria em que a igreja militante se encontra no presente, enquanto aguarda a vinda do Senhor Jesus, ocasião em que se tornará igreja triunfante. Ao mesmo tempo, ensina que não podemos ser cristãos sem ela. Que apesar de tudo, precisamos uns dos outros, precisamos da pregação da Palavra, da disciplina e dos sacramentos, da comunhão de irmãos e dos cultos regulares.

Cristianismo sem igreja é uma outra religião, a religião individualista dos livre-pensadores, eternamente em dúvida, incapazes de levar cativos seus pensamentos à obediência de Cristo.

Autor: Augustus Nicodemus Lopes
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NOTA:
(*) Podemos mencionar entre eles: George Barna, Revolution (Revolução), 2005; William P. Young, The Shack: a novel (A Cabana: uma novela), 2007; Brian Sanders, Life After Church (Vida após a igreja), 2007; Jim Palmer, Divine Nobodies: shedding religion to find God (Joões-ninguém divinos: deixando a religião para encontrar a Deus), 2006; Martin Zener, How to Quit Church without Quitting God (Como deixar a Igreja sem deixar a Deus), 2002; Julia Duin, Quitting Church: why the faithful are fleeing and what to do about it (Deixando a Igreja: por que os fiéis estão saindo e o que fazer a respeito disto), 2008; Frank Viola, Pagan Christianity? Exploring the roots of our church practices (Cristianismo pagão? Explorando as raízes das nossas práticas na Igreja), 2007; Paulo Brabo, Bacia das Almas: Confissões de um ex-dependente de igreja (2009).

fonte: Os Desigrejados

22/08/2010

EZEQUIAS RELOADED

Por: Karl Heinz Kienitz

 

 

 

 

 

 

“Estude ... e leia, especialmente biografias” é uma recomendação dada a líderes por Stephen Lorenz, general dos Estados Unidos que deixa o serviço ativo da sua força aérea por estes dias. Na busca de conhecimento de liderança, o “enfoque biográfico” é interessante: enfatiza a prática. Ao cristão que o adota chama atenção a história de Ezequias – entre outras certamente. Ele esteve à frente do povo de Judá numa época conturbada, obtendo êxitos expressivos a despeito das grandes dificuldades que enfrentou. Como que para enfatizar o caso Ezequias, sua história é assunto relativamente extenso de três autores bíblicos1.
Ezequias assumiu o governo de um país em ruínas; as perspectivas do reino de Judá eram as piores possíveis. Em batalha desastrada, seu pai Acaz havia conduzido multidões à morte num só dia. Mulheres e crianças chegaram a ser deportadas. O templo estava fechado e “despachos” eram feitos por toda Jerusalém. Mas lemos sobre Ezequias: “Tinha vinte e cinco anos de idade quando começou a reinar, e vinte e nove anos reinou em Jerusalém... No Senhor Deus de Israel confiou, de maneira que depois dele não houve quem lhe fosse semelhante entre todos os reis de Judá, nem entre os que foram antes dele. Porque se chegou ao Senhor, não se apartou dele ... para onde quer que saía se conduzia com prudência...”
Como o jovem Ezequias pode “dar a volta por cima”? O texto bíblico apresenta dois fundamentos para a atuação de Ezequias: uma decisão pessoal genuína em resposta à chamada de Miqueias ao arrependimento, e um relacionamento de fé (confiança) com Deus. Mais tarde o rei Josias seria apresentado como o rei mais fervoroso, porém o que lemos sobre Ezequias não deixa dúvida sobre seu pragmatismo confiante, fruto de uma fé madura.
Alicerçado em sua experiência pessoal, e apesar de todas as mazelas econômicas e militares da nação, Ezequias elegeu como primeira prioridade uma reorientação espiritual e de valores do seu povo: “... no primeiro ano do seu reinado, no primeiro mês, abriu as portas da casa do Senhor”. Inicialmente o jovem rei convocou os líderes do povo a um recomeço; infundiu-lhes dedicação e entusiasmo; soube vencer a inércia de alguns; e alavancado no apoio dos líderes reformou sua nação. As chaves para o sucesso desse processo foram: o “treinamento” de líderes; a ação pastoral de Ezequias; a bênção de Deus; e a manutenção de uma vida espiritual equilibrada.
Sob Ezequias a vida espiritual em Judá distinguiu-se por uma espiritualidade autêntica. Durante todo seu governo homens como Isaías, Miqueias e Oseias chamaram ao arrependimento, anunciaram a esperança do Messias e exortaram o povo a viver nos padrões de Deus. Os Provérbios transcritos pelos homens de Ezequias (Pv 25-29) documentam a qualidade do ambiente espiritual e social em Judá. Eis dois exemplos: “Se o seu inimigo estiver com fome, dê comida a ele; se estiver com sede, dê água”; “Um país sem a orientação de Deus é um país sem ordem. Quem guarda a lei de Deus é feliz”.
O ambiente em Judá refletia a qualidade da vida espiritual e o conhecimento do rei. Ezequias aprendeu que Deus cumpre o que promete, que tudo coopera para o bem de quem ele ama e que seu perdão é definitivo. Ezequias o expressou da seguinte forma: “Que direi? Como me prometeu, assim o fez... Eis que foi para a minha paz que tive grande amargura, mas a ti agradou livrar a minha alma da cova da corrupção; porque lançaste para trás das tuas costas todos os meus pecados”.
Da atenção à primeira prioridade resultou estabilidade individual e coletiva, viabilizando significativas realizações. Ezequias fortificou cidades, reaparelhou o exército e fortaleceu a segurança derrotando os filisteus. Em Jerusalém mandou construir um aqueduto através de rocha maciça, conhecido como o aqueduto de Ezequias e tido como uma das admiráveis obras de engenharia da Antiguidade.
Imprevistos desafiadores não tardaram. “Depois destas coisas e destes atos de fidelidade, veio Senaqueribe, rei da Assíria, e... acampou-se contra as cidades fortes, a fim de apoderar-se delas.” A reação de Ezequias mostra sua confiança incondicional em Deus e seu motivo para pedir intervenção divina é aprovado. Durante a crise, Ezequias continuou buscando conselho e valendo-se de trabalho em grupo. Assim como no início do seu reinado, o apoio dos líderes foi fundamental e o contato com a comunidade evitou a histeria coletiva quando tudo parecia perdido.
Um segundo imprevisto grave ocorreu mais ou menos à mesma época. “Naqueles dias Ezequias adoeceu de uma enfermidade mortal...” A doença levou Ezequias novamente a refugiar-se em Deus e levar a ele sua grande consternação. O texto bíblico não detalha os motivos da tristeza de Ezequias. Conjecturo que além da perplexidade pessoal com a morte iminente, havia pelo menos mais outra razão: o rei percebeu o grande risco da sua falta para a estabilidade da nação – não tinha então sucessor. Sua humildade e fé madura o levaram a reconhecer após sua convalescença: “Eu sei que foi para o meu próprio bem que sofri tanta aflição”.
Praticamente na sequência Ezequias é submetido a outra provação com propósito bem específico: “... quando vieram embaixadores de Babilônia, para se informarem do milagre da sua cura, Deus deixou-o agir sozinho, sem interferir, para que se revelasse inteiramente o seu caráter”. Durante a visita dos embaixadores, Ezequias agiu com um misto de credulidade, precipitação e orgulho, mas reconheceu seu erro ao ser interpelado por Isaías. Infelizmente o dano já estava feito e a resposta dada pelo rei a Isaías sugere que saúde e conforto fizeram Ezequias perder a visão além do horizonte da própria vida, algo que no momento da sua enfermidade parecia ser diferente. Essa negligência culminou em uma sucessão desastrosa. A diretriz colocada por Ezequias, “... o pai aos filhos faz notória a tua verdade”, não foi implementada com sucesso na educação do seu filho e sucessor Manassés. Judá passaria por momentos tenebrosos nas mãos de Manassés que, tão somente pela graça de Deus, acabaria se voltando à fé de seu pai após muita dor. Assim a parte final da história de Ezequias fornece impulsos importantes para refletir sobre um assunto atualíssimo: liderança, sucessão e continuidade institucional.
Eis um sumário de algumas lições de liderança que podem ser aprendidas do caso Ezequias:
a) Uma decisão pessoal genuína e um relacionamento de confiança com Deus são bases sólidas para uma liderança transformadora.
b) A chave para um grupo são seus líderes, mas eles precisam ser preparados e estimulados.
c) Duma vida espiritual equilibrada resultam estabilidade individual e coletiva.
d) Credulidade, precipitação e orgulho são perigos que rondam o líder, até mesmo o líder experiente.
e) Sucessão não se resolve sozinha e muito menos “do dia para a noite”. Falhas no processo sucessório comprometem a continuidade institucional e destroem conquistas anteriores.
f) A graça de Deus nos sustenta: “... da tua parte, Senhor nosso Deus, respondias às suas orações, e estavas sempre a perdoar-lhes as suas maldades, ainda que sejas um Deus castigador de tudo o que for pecado” (Sl 99.8).
Notas
1. Este texto se refere à história do rei Ezequias de Judá como anotada em 2 Reis 18-20, 2 Crônicas 29-32, Isaías 36-39 e Jeremias 26.17-19. Citações bíblicas seguem versões de Almeida, Bíblia na Linguagem de Hoje ou O Livro.
• Karl Heinz Kienitz recebeu o doutorado em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica Federal de Zurique, Suíça. É professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica em São José dos Campos, e tem atuado como docente voluntário no treinamento de líderes pelo Haggai Institute em Maui e Cingapura. Karl mantém uma página Internet sobre fé e ciência no endereço www.freewebs.com/kienitz.

Fonte: Editora Ultimato - formação e informação