07/07/2010

JEOVÁ NO BANCO DOS RÉUS

 João Heliofar de Jesus Villar


 

 

 

 

 

 

Há quem diga que é um exagero, mas não seria de todo inexato dizer que devemos, ao menos em parte, o cânon bíblico a um herege que, mesmo herege, não deixou de prestar um serviço relevante à história da Igreja. Márciom, no segundo século, decidiu quais deveriam ser os textos inspirados e criou o primeiro cânon. Era uma seleção singular. O Deus do Antigo Testamento foi deixado de lado, porque não se coadunava com a revelação graciosa que ele identificou em Jesus de Nazaré. Desse modo, seu cânon era uma cuidadosa seleção de escritos, com especial destaque para as cartas de Paulo, o grande teórico da doutrina da graça. O que lhe parecia incompatível com esses ensinos foi cuidadosamente eliminado. Jeová, com suas guerras sangrentas, com suas imprecações e demonstrações de ira, obviamente nada tinha a ver com o Espírito gracioso que se manifestou na pessoa de Cristo. Num movimento notável, Márciom expurgou Jeová da Bíblia.
O desafio obrigou a Igreja a definir o que efetivamente era canônico; isto é, dentre os escritos que corriam nas igrejas, o que poderia ser julgado como divinamente inspirado. Os pais da Igreja e as principais autoridades que defendiam a ortodoxia formularam suas listas que, depois de inúmeros debates que se estenderam até o quarto século, terminaram na confecção do que hoje aceitamos como as escrituras sagradas.
A heresia de Márciom foi superada e a herança do Antigo Testamento foi integralmente preservada pela ortodoxia. Apesar disto, é de se reconhecer que se Márciom está morto, o cadáver é difícil de enterrar. De quando em quando seu fantasma reaparece para nos assombrar. Mesmo hoje, não é raro vermos Jeová sentado na cadeira dos réus, acusado de ser mera projeção das tendências sanguinárias do povo de Israel. Um Deus tribal, sedento de sangue, ciumento, iracundo, que não pode corresponder ao Deus de amor revelado nas páginas do Novo Testamento. Mesmo dentro da igreja há autores que atribuem tantos vícios ao Deus do Antigo Testamento quanto o rosário de maldades que Dawkins lançou sobre Jeová na sua propaganda neoateísta: “Deus, um Delírio”.
Qual a razão desse fenômeno? Por que é intelectualmente desconfortável defender o Deus do Antigo Testamento, o Senhor dos Exércitos de Israel?
É difícil encontrar uma resposta só, porém uma pista que parece certeira aponta para o fato de que não há nada mais incompatível com o humanismo secular – que de tão perto nos assedia - do que um personagem que não submete seu padrão de justiça a nenhum paradigma culturalmente justificável. Não é difícil verificar atos de juízo na Bíblia, que são escandalosos do ponto de vista secular. Um padrão de justiça dessa natureza, incorretíssimo politicamente, inevitavelmente levaria o respectivo juiz à reprovação geral.
Note por exemplo o episódio da execução de Uzá em 2 Samuel 6. A Bíblia relata que Davi resolveu trazer de volta a arca da aliança para Jerusalém, décadas depois de o objeto sagrado ter sido retirado da cidade santa. Durante o transporte, feito em carros de bois, um dos animais tropeça e a arca está para cair no chão, momento em que Uzá estende a mão para evitar a queda. Por ter tocado na arca ele cai fulminado no chão.
Que Deus é esse? Por que matar um ser humano pelo fato de ele tocar num utensílio? É razoável?
Porém, esse texto e outros, como o que vemos na história dos filhos de Aarão em Levítico 10, revelam um contraste fatal entre a santidade de Deus e o pecado do homem. A inimizade é mortal. Ninguém viola impunemente os limites da santidade de Deus. O homem é pecador – cuide como haverá de se aproximar do seu criador. Mas como explicar isso aos nossos amigos da academia, à “Folha de São Paulo”, a Hollywood? Essa perspectiva nunca encontrará trânsito confortável numa cultura secular. Daí a solução de Márciom ser tão providencial e sedutora: vamos eliminar o inconveniente, expurgando esse Deus santo da Bíblia.
O interessante é que a proibição de se tocar nos utensílios do santuário – entre os quais estava a arca - está expressa, sob pena de morte, em Números 18.3. Mas quando a execução chega, quando uma vida humana é tirada com base numa transgressão humanisticamente irrelevante, secularmente inaceitável, o choque é inevitável. É fácil dizer que o salário do pecado é a morte, o difícil é testemunhar a concretização dessa sentença.
Devido aos efeitos da absoluta dessacralização da cultura no pós-modernismo e de todo o movimento que tomou conta do último século no pós-guerra, somos a mais informal, a mais profana de todas as gerações. Profana não no sentido escandaloso do termo, mas no sentido de que ninguém antes ignorou (ou não compreendeu) o sagrado como esta geração. Gostamos de falar em graça e suspeitamos de que aquele que insiste em enfatizar santidade sofra de algum tipo de tara moralista.
Nós, como Márciom, corremos o risco de julgar repugnantes os atos de Jeová no caso de Uzá, dos filhos de Aarão etc. Por que Davi e Aarão não reagiram assim? Por que permaneceram – como nos parece - inacreditavelmente submissos? Por que os pais da igreja não seguiram a Márciom e não aceitaram o seu conselho de expurgar o Deus de Moisés? Por que não ficar apenas com o Deus de amor, revelado em Jesus Cristo?
Na verdade o mal está em nós, em nossa cultura. Os nossos antepassados não se impressionavam com os atos de juízo de Deus, simplesmente porque não eram humanistas. Não viam o mundo a partir de uma lente antropocêntrica. Ao revés, eram teocêntricos até o pescoço. O que lhes parecia incompreensível não era a justiça de Deus, mas sim o fato de que um Deus santo pudesse exercer misericórdia diante do homem pecador. Para eles, chocante era a misericórdia, não o juízo. O juízo sempre foi merecido. O escândalo – feliz escândalo – é que um Deus santo possa exercer misericórdia diante do que realmente somos
.
• João Heliofar de Jesus Villar, 45 anos, é procurador regional da República da 4ª Região (no Rio Grande do Sul) e cristão evangélico.

FONTE:  Editora Ultimato - formação e informação

06/07/2010

DA ARTE DE NÃO FAZER AMIGOS

3703280999_4ea1be6dd7_m

1. Fale sempre a verdade, isto é, o que você acha que é verdade, mesmo que vá doer nos outros.
2. Seja sempre crítico, com olhos sempre atentos a tudo e a todos. Afinal, os defeitos devem ser revelados, para que as pessoas mudem.
3. Deseje que os amigos sejam sempre pontuais como você, corretos como você, dedicados como você, interessados como você.
4. Quando seu amigo errar, não o perdoe, porque ele não podia fazer o que fez.
5. Convidado para um aniversário de um amigo, faça qualquer outra coisa e não vá, mesmo que não seja nada, para não ter que encontrar pessoas desagradáveis.
6. Jamais dê um presente, sobretudo quando estiver bastante ocupado ou o dinheiro andar curto.
7. Na hora do jantar num restaurante, faça questão de dividir rigidamente a conta, real por real, centavo por centavo. Afinal, precisamos ser sempre justos.
8. Não responda às mensagens que os amigos lhe mandam.
9. Não desvie sua rota para dar carona a um amigo. Não saia da sua rotina para aceitar um convite.
10. Conte muitas histórias, todos os seus sonhos, mas nunca ouça os relatos dos outros, porque não são interessantes.
11. Pense que os amigos devem estar sempre à sua disposição e viva como se a recíproca não fosse verdadeira.
12. Jamais abra o seu coração com alguém.
Israel Belo de Azevedo, no Prazer da Palavra.

FONTE:  PavaBlog

05/07/2010

A BÊNÇÃO DE SER UM DERROTADO

 

Ninguém gosta de perder... A perda sempre gera momentos de dor, angústia, frustração, insegurança em relação ao futuro e quase nunca estamos preparados emocionalmente para perder, seja pela surpresa, pelo inesperado que nos atropela de repente ou por precisar abrir mão de algo importante. Numa sociedade viciada em ganhar, onde, desde muito pequenos, somos adestrados e incentivados a agir sempre competitivamente em todas as coisas, aprendemos que somente os fracos perdem.
Em tempos como os que vivemos, a derrota parece ser o não sucesso, o não se sobressair tanto no mercado de trabalho como na conquista de uma pessoa desejada, não alcançar algo que se quer ou perder para alguém mais forte, aparentemente melhor preparado que a gente.
Não é tão incomum, e aliás está se tornando uma doença crônica que vai se alastrando incontrolavelmente, ouvir até mesmo os ambientes religiosos reproduzindo o velho discurso a favor da "vitória" a qualquer custo. Mesmo que para isto seja preciso abrir mão do bom senso, do Evangelho puro e simples ensinado por Jesus, não como um meio de ganhar tudo o que se quer ou se deseja, mas, mesmo na aparente derrota, encontrar o caminho da consciência pacificada de que todas as coisas cooperam sempre para o bem daqueles que amam a Deus e são chamados segundo um propósito infinitamente maior do que perder ou ganhar. Até mesmo a perda ou o não ser atendido na petição que fazemos se torna motivo de glória e livramento incontáveis vezes. Na perspectiva do Reino nem sempre os "vitoriosos", os "fortes" ou aqueles que chegam em "primeiro lugar" cheios de "honras" herdarão a terra.
Tenho visto uma geração inteira dentro dos templos/mercados pagando, e pagando muito caro, alguns dão o que não podem para tentar se tornar "vitoriosos" segundo as suas próprias perspectivas viciadas e distorcidas. Dão ofertas/oferendas generosas, fazem pactos, propósitos, compram o favor das entidades ou das forças e elementos da natureza afim de se tornarem imbatíveis. Querem fechar o corpo, ganhar força e poderes sobrenaturais para jamais perderem. Como se fosse possível, tentam até mesmo comprar o "in-comprável", acham que Deus é um negociador que distribui bens, fortuna e sucesso em troca de moedas, sacrifício ou serviço abnegado. Eles até ganham alguma coisa, conquistam lugares, pessoas, situações e demandas, mas acabam perdendo o essencial da vida. "Ganham" sempre, mas ganham sem paz, sem alegria, sem sabor e sem verdade.
Precisamos entender que nossa limitada e frágil humanidade, nossa derrota diante das vitórias que provocam mais mal do que bem, na verdade, é uma bênção. É exatamente a capacidade de perder que nos faz crescer para a vida. A perda não é sinal de fraqueza, mas sim de força pois é neste momento que a consciência de que não somos indestrutíveis cresce ou que nossa aparente força nada é, que descobrimos o dom do quebrantamento. Por incrível que pareça, o poder de Deus em nossas vidas se aperfeiçoa mesmo é na fraqueza, no reconhecimento de que o controle de todas as coisas é somente Dele. Perder ou ganhar, neste sentido tanto faz, é só mais um aprendizado.
A arrogância dos "vencedores" e dos "poderosos" é, de fato, a anti-vitória. Quem ganha sempre forçado ou comprado, está acumulando para si próprio uma perda irrecuperável, a destruição dos valores fundamentais da vida, da segurança de passar pelo vale da sombra da morte sem temer mal algum porque a presença Daquele que habita o coração dos quebrantados e humildes o acompanha.
Não! Eu não quero ganhar sempre, decretado, comprado ou profetizado... Ganhando ou perdendo, vou seguir minha vida habitando com Aquele que me faz mais do que vencedor até mesmo nas derrotas que me sobrevém, sendo seguido pela bondade e pela misericórdia todos os dias da minha vida.
Eu não sei se amanhã eu vou ganhar ou perder, a única certeza que está viva e pulsante no meu coração, todos os dias, é que eu sei em Quem tenho crido e sei também que Ele é fiel e poderoso para me guardar até mesmo no dia da derrota, no dia mal.
O Deus que chamou para junto de si os fracos e sobrecarregados te abençoe rica, poderosa e sobrenaturalmente!

FONTE:  velha Magra

04/07/2010

Entrevista com o teólogo Ariovaldo Ramos

 

“A criança é a melhor parte da humanidade”

Apresentação:
Sou Ariovaldo Ramos. Casado. Pai de duas meninas — Mirna com 21 anos e Raquel, com 18. Esposo da Judite; ela trabalha com as Edições Vida Nova. Eu sou missionário da SEPAL, que é uma organização para treinamento de pastores e líderes.
Mãos Dadas: A criança pode fazer teologia?
Ariovaldo Ramos: Qualquer uma. A criança, quando aprende dos pais sobre Deus, vai processar em sua mente o que aprendeu. Esse processo dela já é teologia. Então, todo mundo faz teologia. O que diferencia os “teólogos profissionais” dos demais é que eles transformaram o pensar em Deus no labor principal das suas atividades, transformaram isso em uma ciência. Mas teologia, no seu mais objetivo significado, qualquer ser humano faz; teologia cristã, qualquer pessoa faz.
M.D.: Com relação à criança, que papel a teologia tem? A teologia tem alguma contribuição a dar para pessoas que trabalham com crianças em situações de risco social? Qual?
A.R.: A teologia diz o seguinte para elas: Primeiramente, a criança foi reconhecida por Jesus Cristo como a melhor parte da humanidade. Quando perguntaram para Jesus Cristo quem era maior no reino, ele chamou uma criança. Quando perguntaram para Jesus Cristo como é que faz pra entrar no reino, ele também chamou uma criança. E ele disse que o maior no reino era quem fosse como uma criança; e ele disse que quem quisesse entrar no reino tinha de se tornar como uma criança. Então a criança é entendida por Jesus Cristo como a melhor parte da humanidade, a melhor parte da vida humana. Aqui está concentrado grande parte de todas as virtudes que Deus gostaria de ver vingando na humanidade.
Sendo isso verdade, localize nas crianças o que há de melhor - “o que Jesus elogiou nas crianças?” - e faça todo um trabalho para que ela possa crescer sem perder isso, isto é, a abertura de coração, a capacidade de perdão, a capacidade de fazer amizade, de reconhecer no outro um ser igual, independentemente da sua origem e da cor da sua pele – “é só mais uma criança que pode brincar comigo”. Ajude-a a crescer brincando com todos, como ela brinca agora. Se você pegar uma criança e a colocar no meio de outra criança - não importa se ela tem a cor da pele diferente, os olhos diferentes ou o cabelo diferente - cinco minutos depois você já não vai saber mais diferenciá-las, porque elas estarão brincando: correndo juntas, chutando bola, brincando de esconde-esconde ou de boneca. Trabalhe para que isso nunca se perca.
É na criança onde a humanidade consegue concentrar o melhor daquilo que a graça comum tem emprestado à ela na tentativa de dar tempo para a nossa reversão, para a nossa salvação. Os valores que aparecem na criança, são os valores que Deus deseja resgatar no ser humano. Então trabalhe com a criança de modo a fazer com que ela nunca perca isso.
Temos de reconhecer que a igreja evangélica não faz isso direito na base. Muitos programas de criança são, na verdade, um jeito de as crianças não atrapalharem os adultos. Elas são jogadas num canto, porque, afinal, quem vai prestar culto a Deus são os adultos. Porém, quem pensa assim não compreende que o verdadeiro louvor vem da boca de pequeninos. Portanto, ao invés de apartar as crianças, deveríamos ficar de joelhos e aprender com elas.
Não devemos adorar a Deus? Não reconhecemos que ele é a maior realidade do universo e que a melhor coisa que existe no mundo é a vontade dele? Portanto, se reconhecemos Deus e seu amor, também entendemos que louvar a Deus e reconhecê-lo é a melhor maneira de viver. Quem faz isso melhor? A Bíblia diz que são as crianças. Das crianças de peito e dos pequeninos, Deus suscita o louvor perfeito. Então vamos aprender com as crianças. Como é que elas falam com Deus? Como é que elas louvam a Deus? Como é que elas cantam? Como é que elas riem quando ouvem sobre Deus, quando ouvem sobre a história de Jesus? Como é que elas se identificam com ele?
Partindo dessa perspectiva, todos nós tínhamos de fazer um grande trabalho não apenas de ensinar as crianças, mas de aprender com elas. Porque Jesus as chamou como exemplo. Elas deveriam ser a nossa melhor fonte pra entender o que Deus quer.
M.D.: Existem duas direções na teologia com a criança. Uma (que talvez seja a mais comum no Brasil) é usar a teologia pra ensinar a criança; a outra é ter a criança como uma fonte da reflexão teológica. Há espaço para as duas?
A.R.: Há, claro. Sem dúvida nenhuma. E eu acho, inclusive, que a segunda é mais urgente. Nós desenvolvemos um sem número de técnicas de ensino de crianças. Muitas das nossas técnicas, inclusive, trabalham em cima de pesquisadores não-cristãos que elaboraram toda uma tese sobre a criança. Nós tínhamos de ter a coragem de elaborar uma nova tese sobre a criança. Precisamos transformar algumas coisas que as pessoas, inclusive esses pesquisadores, vieram a chamar de fragilidade infantil e entender que é nessa fragilidade que está a força. Nessa capacidade de perdoar facilmente, de pedir ajuda, de pedir socorro, de chorar quando sentir dor, de sair correndo atrás da mãe quando leva um tombo, de reconhecer a sua fraqueza e seu medo, de confessar que tem medo do que não entende e do que não conhece, reconhecer que precisa de ajuda e de proteção. O que durante séculos tem sido entendido como uma fraqueza, deve ser resgatado e compreendido: aqui está a força e a profunda realidade. Essas crianças não têm ilusões acerca de si. Elas sabem que precisam de ajuda. Elas sabem que estão com medo. Elas sabem que o escuro as amedronta porque é o desconhecido. E elas sabem que o desconhecido pode ser uma ameaça e que precisam de segurança.
M.D.: E, ao mesmo tempo em que ela está com medo, ela reconhece que o mundo não tem resposta pra tudo.
A.R.: Exatamente. E ao mesmo tempo ela tem aquela curiosidade que é o que contemporiza, o que equilibra o medo, porque senão o medo poderia levar a uma inação absoluta. Mas esse medo é compensado pela curiosidade, pelo desejo de saber, o desejo de conhecer, o desejo de experimentar. Essa coisa da criança, de que não basta só ter a informação, precisa provar. Então a criança pega tudo e leva à boca, porque tem que ter gosto. Se você falar para a criança que tem um gato dentro do armário, ela vai ver. Ela quer tocar no gato. Tem de ter gosto. Sua vida tem de ter gosto. Tem de ter risco. Se tivéssemos resgatado a criança, não teríamos caído, por exemplo, na frieza do Cartesianismo (que é a tese do René Descartes de que a razão é o primado da verdade). Segundo ele, verdade é aquilo que a razão é capaz de entender e de descrever. Isso reduziu o mundo a um código de informações. Assim, você conhece uma pessoa que é capaz de dizer tudo sobre a laranja, sem ter chupado uma laranja. Isso não passa na cabeça de uma criança. Você nunca vai ouvir uma criança dizer tudo sobre a laranja. Ela quer experimentar a laranja. É o que interessa sobre a laranja. É gostosa ou não? Está azeda? Isso é bom? É ruim? Isso aqui não faz bem ou “ah, não gostei!”. Tem gosto e tem desgosto, não é? É para ser provado. Agora nós caímos num mundo cartesiano, dessa coisa do primado da razão, em que nós somos capazes de descrever tudo sem ter posto a mão naquilo, sem ter tocado naquilo.
M.D.: Até Deus.
A.R.: Até Deus. Aí é a crítica que James Houston fez, por exemplo, para a psicanálise. Em que o cara é capaz de dissecar o ser humano sem lhe dar um abraço. De dizer pra ele o que está certo e errado com ele sem ter chorado com ele.
M.D.: E a teologia? Faz o que com a teologia?
A.R.: A teologia fundamentalista, sem alma, faz a mesma coisa, porque transforma a Bíblia num manual. E isso é um equívoco. Transformar a Bíblia num manual é prescindir do Espírito Santo. Eu sou um desses caras estranhos que gosta de ler manual. Leio o manual de tudo que compro. O princípio do manual é de que ele prescinde do autor do manual. Um bom manual é aquele em que a pessoa que escreveu não precisa estar perto. Se isso for necessário, é porque ele escreveu um manual ruim. Eu não posso ficar toda hora ligando para o responsável pela Palm dizendo: “Escuta, quando você escreveu aqui que se eu apertar a tecla tal... você estava querendo dizer o quê?” Não dá. Esse é um péssimo manual. Um bom manual é aquele em que eu não preciso mais do autor do manual.
Então, a Bíblia não é um manual. A Bíblia é a espada do Espírito Santo. Você não tem condições de trabalhar as Escrituras Sagradas sem o apoio do Espírito Santo. Você precisa dele. É ele que revela para você o que está na Bíblia. Ele a traduz em seu coração. Ele transforma as palavras dela em vida para você. Ele faz você perceber qual é a relevância e como aquilo deve ser interpretado para o dia de hoje. O fundamentalismo transformou a Bíblia num manual. Caiu no erro iluminista. Caiu no erro cartesiano.
M.D.: Virou uma fórmula...
A.R.: É uma fórmula. A razão humana vai dissecar o manual. Este prescinde de Deus. É como a história daquele pastor que estava viajando para fazer uma pregação. Aconteceu uma lufada de vento na viagem e as anotações do sermão voaram pela janela aberta do carro, mas ele não percebeu. Quando o pastor chegou à igreja, viu que as anotações tinham se perdido no caminho e disse: “Ó irmãos, lamentavelmente meu sermão voou da janela do carro. Por isso, hoje vamos ter de depender do Espírito Santo. Mas eu prometo que é a última vez”. Isso não pode acontecer.
Você não pode tirar a Bíblia e dizer que a Bíblia não é um livro inteligível. Ela é um livro inteligível. Claro. Ela é dada, escrita por gente inspirada, porém por gente que estava pensando. Não é psicografia. Os autores foram escrevendo ali no calor da vida, com sangue, suor e lágrimas. Não é “Oh! Deus está ditando! Entrou em transe!”. Não, não é nada disso. Eles estão escrevendo no dia-a-dia. E o Espírito Santo vai conduzindo-os nesse processo: inspirando, revelando e mostrando coisas para eles. E eles vão escrevendo. O Espírito Santo vai supervisionando tudo isso. No entanto, isso nasce da vida. Não é espiritismo. Isso nasce no seu relacionamento com Deus. Agora, a Bíblia, embora seja um livro absolutamente inteligível, é um livro em relação ao qual você não pode prescindir do Espírito Santo. Não pode prescindir de Deus. Então a Bíblia não é um manual.
M.D.: Voltando ao nosso agente social, que está lá trabalhando, que tem a Bíblia. O que ele pode fazer pra melhorar o pensar teológico em relação à criança?
A.R.: Primeiro, ele tem de desconstruir a imagem de criança que tem sido vendida esse tempo todo. Ele não pode mais se aproximar da criança como se ela fosse um ser ignorante para quem você precisa ensinar, senão ele não vai crescer em graça e sabedoria. Ele tem de chegar até à criança já pensando no seguinte: “Este ser é cheio de graça e de sabedoria; só que é uma sabedoria instintiva. Eu tenho de aparelhá-la de modo que ela possa ter cada dia mais consciência dessa sabedoria instintiva que há nela e saber crescer sem perder a sabedoria”.
A segunda coisa que ele precisa fazer é, na minha visão, algo óbvio: deixar a criança participar mais. Vamos suscitar esse louvor que a Bíblia diz que sai da boca dos pequeninos. Deixa as crianças falarem de Deus. Ao invés de doutrinar a criança a priori, deixa a criança falar de Deus e depois vai rearranjando o que ela falou nas lacunas que ela ainda tem. Entra em contato com a criança sabendo que instintivamente ela sabe o que a Bíblia diz: que dela sai o perfeito louvor. Então, deixa ela falar de Deus. Suscita coisas como: “O que é que você acha de Jesus? O que você acha de Deus? Como é que você entende isso aqui? O que é que você diria para Jesus se você tivesse lá na manjedoura com ele? O que é que você ia falar pra ele?”. Deixa a criança falar o que ela acha que Deus pensa sobre o tipo de vida que ela está levando. Esse é um conselho importante, principalmente, para as pessoas que trabalham com as crianças pobres. “O que você acha que Deus gostaria que realmente viesse a acontecer dentro de você?” Portanto, acho que essa é a segunda coisa: deixar as crianças falarem mais. Depois, é só ir fazendo os rearranjos e preenchendo as lacunas. Não é transmitir uma mensagem “de cima pra baixo”, com um pacote pronto em que toda a relação instintiva e intuitiva da criança com Deus vai ser sufocada. Assim, a criança vai ser o que os adultos querem que ela seja e vai falar de Deus do jeito que os adultos querem que ela fale.
O mercado ultimamente optou pela criança. Já viram a quantidade de propaganda pensando nas crianças? Essa é a grande missão do cristão que está envolvido com o ensino da criança e convivendo com ela: livrá-la das garras do mercado. Ele não deve permitir que o mercado transforme a criança apenas e tão somente em um consumista. Tem que ajudar as crianças a criar, inventar e construir seus próprios brinquedos e formas de brincar. Vamos deixar as crianças interpretarem as Escrituras. Deixálas representar as cenas bíblicas do seu jeito.
Outra coisa: brinque, porque criança aprende brincando. Brinque com a criança. Criança brinca. Não queira criar um ambiente adulto no meio das crianças. Eu me lembro que antes de eu me casar eu tive de fazer um curso na Costa Rica sobre trabalho com adolescentes. Fiquei lá participando do curso intensivo de um mês. E aí tinha um camarada... eu esqueço o nome dele. Um missionário que era professor na Universidade de Costa Rica na área de recreação, de lazer. Era a primeira vez na minha vida que eu ouvia que existia isso na universidade. E, então, ele disse uma coisa que marcou a minha vida e marcou o meu relacionamento com as minhas filhas. Ele disse: “Se você quiser realmente ensinar coisas a seus filhos, brinque com eles”.
Eu ensinei as verdades mais profundas para as minhas filhas (sobre ética, sobre justiça, sobre partilha), enquanto brincava com elas. Eu ensinei as coisas mais profundas sobre Jesus Cristo, sobre Deus, enquanto brincava com elas. Porque ali, no meio da brincadeira, quando uma tinha dificuldade de entender que a outra tinha se saído melhor, eu podia falar sobre alegrar-se na vitória de cada uma. Eu podia falar sobre aprender com a aparente derrota. O que é uma missão a se fazer. É uma verdade a se falar. É algo a aprendermos. E quando elas queriam mudar as regras do jogo no meio do caminho, eu dizia: “Não, agora a gente precisa terminar esse jogo primeiro, porque nós estabelecemos as regras, não foi? Então vamos até o fim com essas regras. Quando a gente terminar esse jogo e quiser jogar outra coisa, a gente pode pensar em outras regras. Mas agora que já fizemos as regras, não vamos mudar no meio do jogo. Não se muda as regras assim”.
Eu fui ensinando enquanto elas andavam de cavalinho em cima de mim. Deixavam minha esposa maluca porque a gente fazia “guerra de almofadas”! Nós sempre fomos pobres. Então a gente morava em apartamentos sem cortina. Você pode imaginar a baderna que era aquilo! As visitas entravam em parafuso, porque não ficava pedra sobre pedra. Mas ali, muito do caráter delas foi construído. Então, brinque com as crianças. Não transforme a escola dominical naquele negócio horrível. Não transforme os encontros naquele negócio horrível, militar. Brinque com as crianças, saiba ensiná-las as coisas mais profundas só enquanto brinca. Enquanto faz dinâmica, enquanto elas falam. Ajude...
Deixe as crianças orarem. Deixe as crianças falarem com Deus do jeito delas. Acredite que Deus realmente acha que as crianças são o máximo. Acredite nisso. Nós não somos. Nós, os adultos, nós perdemos muito de Deus. Nós perdemos muito da fé. Nós não conseguimos mais crer como uma criança crê. Nós não conseguimos nos jogar nos braços de Deus como uma criança se joga nos braços do Pai. Então, vamos aprender fé com as crianças. Vamos aprender confiança com elas. Vamos aprender dependência com a criança. Vamos desconstruir esse estereótipo que nós criamos, que “mata” as crianças, porque as força a serem adultas antes do tempo, e que não deixa que elas sejam a grande revelação de Deus. Do Deus que gosta de abraço, do Deus que gosta de aconchego, do Deus que sabe que você só realmente entendeu alguém quando você conseguiu abraçá-lo e chorar com ele. Isso a criança faz. Quando os pais não estragam, é lógico. Mas crianças que os pais não estragaram, é uma beleza!
Acho que temos de repensar o seguinte: em Mateus 18 Jesus Cristo não disse apenas que as crianças eram o principal no reino de Deus e que quem quisesse entrar nele tinha de se tornar como elas, mas Jesus Cristo disse também que quem desviasse uma criança, era preferível cometer suicídio. É melhor se matar do desviar a criança da sua simplicidade, do seu relacionamento com Deus. Jesus disse que a criança era tão importante que, por ela, deveríamos fazer qualquer sacrifício.
Jesus conta a estória do pastor de ovelhas que tem cem ovelhas. Uma se perde. Ele deixa as noventa e nove no monte e vai procurar a ovelha perdida. E aí ele pergunta: “Qual é o pastor que tendo cem ovelhas, perdendo uma, não deixa as noventa e nove nos montes e vai procurar a ovelha perdida?” E a resposta à pergunta dele é: “Nenhum.” Nenhum faria isso. Isso é uma loucura. Por quê? Porque se ele for atrás da que se perdeu e deixar as noventa e nove nos montes, quando voltar não tem mais nenhuma. Mas o que é que Jesus está dizendo? A criança é tão importante, que se precisar fazer uma loucura pra salvá-la, faça. Se tiver de mudar a economia pra salvar a criança, mude a economia. Se tiver de mudar a política pra salvar a criança, mude a política. Não importa o que tenha de fazer pra salvar a criança, faça. Porque a criança é o que há de melhor no ser humano.
E eu diria mais. No primeiro dia de juízo que a humanidade enfrentou, lá no jardim, quando nossos pais pecaram, traíram a Deus e romperam com ele, e nos lançaram nesse mundo de trevas no qual nós estamos, eu posso imaginar que todos os anjos estavam lá, observando o que o Altíssimo iria falar para aquele casal e para aquele ser híbrido, estranho, sem identidade, dissimulado e absolutamente incompreensível que também estava presente. Lemos aquela passagem bíblica e nem sempre percebemos que o que Deus fez parece ser a nossa grande condenação, mas, na verdade, foi a reinvenção da maternidade. Durante séculos, milênios, nós dissemos o que Adão disse: “A mulher, a mulher, a mulher.” Mas Deus nos salvou quando reinventou a maternidade.
Quando ele olhou para mulher, é como se dissesse: “Seu companheiro está dizendo que você é a grande responsável, mas para você entender que eu não concordo com ele, digo o seguinte: será a sua semente que libertará a sua raça.” Daquele dia em diante, todas as vezes que nós víamos uma mulher grávida, nós sabíamos que ali havia um sinal de esperança, porque uma criança estava chegando. Essa pode ser a criança que nós estamos esperando. Deus fez questão de avisar a humanidade: “A criança que vocês esperavam, chegou.” Durante milênios nós ficamos esperando uma criança. Durante milênios toda mulher carregava no útero uma esperança, a esperança da humanidade. Se antes a maternidade era apenas um instrumento para crescer e multiplicar, agora a maternidade era a nossa única esperança.
Enquanto Deus mantiver a fertilidade feminina, então ainda há esperança para a humanidade. Uma criança vai ressurgir e essa criança vai nos libertar. E hoje, todas as vezes que você vê uma mulher aguardando um filho ou adotando uma criança, você está vendo Deus dizer: “Valeu a pena investir na humanidade. Eu ainda mantenho nas mulheres o espírito da maternidade, o desejo de ser mãe.” Enquanto esse desejo estiver resistindo entre as mulheres, é porque Deus ainda está investindo na humanidade.
Nós perdemos isso, porque lemos a Bíblia da forma mais estúpida possível. Pegamos o que a Bíblia diz de mais rico e empobrecemos. Talvez por isso, Satanás tenha feito da mulher o alvo da sua vingança. Por isso conquistou os machos para se transformarem no terror das mulheres, em todas as raças e culturas, e até mesmo dentro do Cristianismo. Os homens se tornaram o terror das mulheres, sem entender que é na mulher que está a esperança. Nossa única esperança, nossa grande esperança no nosso primeiro grande juízo foi que Deus reinventou a maternidade e deu um novo significado para a criança. Nós não lemos isso. Onde é que você lê isso nos manuais teológicos? Onde você lê isso nas revistas de escola dominical? Mas está lá! Está lá na Bíblia. E está lá na Bíblia há mais de cinco mil anos. Está lá nos textos de Moisés, no primeiro capítulo, no começo da humanidade. É o chamado “proto-evangelho”. Por que nos não vemos isso? Porque enxergamos como adultos, e não como crianças.
Nós não esperamos a chegada dessa criança, mas sim do grande salvador. Mas Deus profetizou uma criança. Isaías retoma isso depois. Deus profetizou uma criança. Uma criança, semente da mulher, vai esmagar a cabeça da serpente. Ele vai triunfar sobre o pecado. Ele vai derrotar o espírito maligno. Então, se os que trabalham com as crianças conseguirem recuperar isso, quem sabe a fé cristã seja o grande motor de transformação da humanidade nessa última parte da história da humanidade? Nós estamos precisando recuperar a nossa capacidade de ressignificar o Cristianismo. Eu acho que retomar esse caminho com a criança é a estrada por onde nós vamos chegar lá.
*A entrevista acima foi concedida pelo teólogo Ariovaldo Ramos aos jornalistas Elsie Gilbert e Lissânder Dias, editores da revista Mãos Dadas, nas dependências da Editora Ultimato, no dia 08 de janeiro de 2006.

FONTE: Revista Mãos Dadas - http://www.maosdadas.net/